ANO: 23 | Nº: 5789

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
12/08/2017 Marcelo Teixeira (Opinião)

Amor inventado

Cazuza cantava: “Exagerado, jogado aos seus pés, eu sou mesmo exagerado. Adoro um amor inventado!” E qual amor não é ou não foi inventado? Lá no início, naquele momento definido pelos teóricos como “paixão” (fase preliminar do amor romântico), a nossa capacidade inventiva então, é ainda maior. Alimentamos a ilusão de que, realmente, “nossos destinos foram traçados na maternidade” e ficamos com a sensação nítida de que “eu nunca mais vou respirar se você não me notar” ou de que “eu posso até morrer de fome se você não me amar.”
Coisa boa! De fato é indescritível o turbilhão de emoções que experimentamos quando nos apaixonamos por alguém. E poucos chegaram tão perto da descrição perfeita destes momentos intensos quanto o Cazuza nesta letra de poucas palavras e muitas verdades.
Só que, mais cedo ou mais tarde, esta fase preliminar termina e o castelo de areia que construímos começa a desmoronar pela ação do tempo. Descobrimos lentamente que estávamos apaixonados por quem não existia, por uma figura idealizada, uma ilusão que enquanto estava nesta condição era perfeita, mas, como brilhantemente sentenciou Abraham Lincoln: "Você não pode enganar todas as pessoas o tempo todo."
Na verdade, nestes casos, dificilmente alguém engana o outro deliberadamente, propositadamente. Nós é que nos enganamos, alimentamos expectativas fantasiosas e, no máximo, conseguimos a cumplicidade da outra pessoa que entra nesse jogo da conquista, abastecendo nossas ilusões “perdido em mil versões irreais de” si mesmo, como canta Tiago Iorc em sua música.
Sobre isso o Pe. Fábio de Melo falou certa vez o que transcreverei abaixo com alguns cortes e alterações visando encurtar o texto sem prejudicar o sentido da mensagem: “Não tenha medo de terminar o seu namoro se você descobre que ali você está vivendo uma ilusão, ou que o outro está fazendo de você um território da sua ilusão. Ninguém tem a obrigação de ser para o outro uma ilusão. Se ele não ama quem você é, não faça esforço para ele amar a ilusão que você está criando para ele amar. Isso é uma prisão terrível! E aqui vale aquele discurso sim: ‘antes só do que mal acompanhado!’ De nada vale você ter alguém de seu lado que não ama quem você é, mas ama quem ele gostaria que você fosse. (...) Paixão é aquele encantamento quando você viu o outro pela primeira vez ou viu ele algumas vezes e acha que aquela pessoa é a pessoa mais perfeita do mundo. Pára com isso! Príncipe encantado tem unhas encravadas! (...) A partir da decepção nasce a verdade! (...) E não tem que ficar desesperado não! Decepcionou-se com aquela pessoa? Não tem problema! Reconstrua com ela, mas do jeito certo. – ‘Ah mas não é mais como era no passado!’ – Não tem que ser! Tem que ser do jeito que pode ser agora. É assim que a gente faz a vida dar certo (...). Sem ilusões!”.
Como diz a sabedoria popular: “Para evitar decepções, diminua suas expectativas!”

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