ANO: 23 | Nº: 5718

José Carlos Teixeira Giorgis

jgiorgis@terra.com.br
Desembargador aposentado e escritor
12/08/2017 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

Dob o signo do fogo

Ao amanhecer me dei conta que era o dia de Nossa Senhora. Feriado em Bagé. Se em Porto Alegre iria à missa da Igreja NS Auxiliadora. Houve época que os conterrâneos ali se encontravam. Desta vez, todavia, estava embarcado entre Roma e Atenas. O programa anunciava passeio sem Positano e Amalfi, mas o mar bravio não chancelou a ancoragem. Vem um cardápio de alternativas, Nápoles, Herculano ou Pompeia. Não titubeei: Pompeia.
De ônibus o percurso entre o porto de Nápoles e Pompeia gasta meia hora. O guia fala inglês, metade das explicações se perde, mas Pompeia, enfim, é Patrimônio da Humanidade, admira como os pesquisadores “desencavaram” a cidade embebedada pelas lavas do Vesúvio. É um sítio romano, com suas estreitas ruas de pedra irregular; o teatro; as casas de espetáculo; as moradias dos abastados, as esculturas e estátuas majestosas. Algumas vezes, a vista se desloca para as vagas, sempre agitadas.
A cidade era habitada pelos oscos, um dos primeiros povos itálicos. Deles surgiu o termo “família”, oriundo de “famel”, grupo chefiado pelo patriarca, seus parentes, servos e bens. Pompeiase tornou importante centro portuário, depois conquistado pelos etruscos e finalmente pelos romanos.
Um terremoto, em 62 d.C., foi a primeira tragédia, contudo o lugar foi reconstruído pelos sobreviventes, retomando as atividades comerciais; ampliaram-se os espaços; templos eram edificados; prédios sumptuosos; as vinhas progredindo; os casarios rústicos proliferavam.
Entretanto, pouco depois do meio-dia de 24 de agosto de 79 d.C. – para outros, 24 de novembro-, o Vesúvio, então adormecido e fingindo-se extinto, boceja e vomita compotência destruidora: chamas se elevam, “um dilúvio de rochas incandescentes caem sobre Pompeia. Desabam muros e telhados, e depois, toda e qualquer forma de vida é destruída por uma onda de água e fogo. Na escuridão o cenário apocalíptico é alimentado por relâmpagos, terremotos e maremotos”, segundo Miseno, sobrinho de Plínio, o Velho, que morreu ali tentando salvar um amigo. Um inferno de três dias. Depois o silêncio.
Essa cobertura de quase seis metros de espessura recobre o espaço entre Herculano e Stabia, ladrões vasculham em busca de tesouros, perdem-se vestígios. Em princípios do século XIX as escavações trazem à luz o Foro; Giuseppe Fiorelli, a partir de 1860, dá início às restaurações, colorem-se os decalques na lava compacta. No correr das décadas seguintes soergue-se a cidade.
Hoje se transita pelas antigas vielas, desvela-se o interior das casas, muros e portões impressionam; os restos da Basílica, o templo de Vespasiano; pórticos imponentes deixam antever pátios magníficos; as termas; os afrescos ressuscitados; o anfiteatro; as colunas; os fornos caseiros.
E também as urnas que guardam habitantes petrificados, as vítimas a erupção. Ainda nas posições em que foram surpreendidos pela enxurrada ardente. Cinzas de vulcão tardio.
De volta ao navioo jantar passana dobrada das ondas, logo se esvazia o restaurante, muitos passageiros não conseguem posição confortável. A cabina também não foi refúgio acolhedor.
Mas como os arcanos bailavam nas ondas com tal esmero e a mudez do Vesúvio distante acalentava o tropel das almas em busca de refrigério, a madrugada é de susto e pavor.
Ainda bem que amanhã a Sardenha prometia deliciosa botarga com vinho branco.
Já insone, lembrei Nossa Senhora.
E uma Ave Maria tranquilizadora.

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