ANO: 25 | Nº: 6259

Dilce Helena Alves Aguzzi

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Psicóloga
15/08/2017 Dilce Helena Alves Aguzzi (Opinião)

Bonito é ser feliz

Sempre questionei a validade da atitude de alguns educadores ao corrigirem certos comportamentos de criança dizendo “não faz assim fulaninho, que é feio”. Ora! Feio para quem? O que esta criança estará aprendendo aí? Que tal gesto não será positivo para si ou que não vai agradar aos outros? Qual das duas alternativas é mais educativa para a vida?
É indiscutível que educar verdadeiramente é auxiliar no surgimento do juízo, do senso crítico. Afinal, se eu for por aqui onde vou parar? E se pegar um atalho? Qual dos dois vai ser melhor para mim? Estarei prejudicando alguém? Assim estamos treinando a capacidade de analisar os prós e os contras de nossos próprios atos e suas consequências e não apenas fazendo isso ou aquilo porque os outros consideram feio, bonito, etc.
O resultado da pseudoeducação para o feio e o bonito aos outros vemos aos montes. Gente que é honesta, organizada, responsável, trabalhadora, correta, bem educada, magra, disciplinada, roupa da moda, segue dieta saudável só para constar, para publicar. São pessoas pálidas, sem viço, nem ao menos uma gota de originalidade, sem uma ruguinha sequer na roupa. Gente chata e insuportavelmente correta, sem o encanto da alegria que vem de dentro.
Jacob Levy Moreno, o romeno mentor do Psicodrama, assombrou o mundo quando afirmou, entre outras coisas, que o ser humano se afasta da felicidade à medida que vai abandonando a espontaneidade. E o que é ser espontâneo? É ser criança de verdade. É quando dizemos com sinceridade desconcertante aquilo que pensamos, sentimos ou desejamos. Sem planejar ou se preocupar com aprovação externa.
Depois de crescer, somos comprados pela ideia de que se fizermos o que pensamos ser (nunca vamos saber ao certo) o que os outros querem, seremos amados para sempre. Mentira! O amor não dá garantias. Claro, é um sentimento e como tal não controlamos, vem direto da nossa fonte de originalidade. Os sentimentos são produtos de nossa usina interna de espontaneidade, que, a despeito de nossa vontade, funciona de modo independente. A única garantia vem do fato de que quando somos autênticos com nossos desejos e jeito de ser transmitimos uma beleza difícil de descrever.
Não pensem que sou contra os bons princípios e virtudes. Ao contrário, proponho o cultivo de todos eles, mas de modo mais íntimo e sincero. Não é para publicar no Facebook para os outros elogiarem. O que é falso, para o aplauso fácil, não é para o crescimento pessoal.
Sempre desconfiei de que não é tão perfeita a vida daquelas pessoas que vivem em lares perfeitamente em ordem. São lugares tão limpos e organizados que lembram vitrines de loja ou catálogos de móveis, tal a impessoalidade. Não há qualquer vestígio de vida feliz ou original por ali. São bem comportados, mas tristes.
Vamos discutir, debater e rejeitar os conceitos preestabelecidos de estética humana. Vamos assumir nossas marcas e imperfeições e adotar um jeito mais democrático e autêntico de viver e buscar o desenvolvimento pessoal. Um novo conceito de beleza, visual e comportamental. Aquele que vem de dentro e ilumina a nossa volta. Afinal, bonito mesmo é ser feliz.

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