ANO: 25 | Nº: 6384

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
17/08/2017 João L. Roschildt (Opinião)

A democracia dos antidemocráticos

Pensar a ideia de democracia em um tempo profundamente marcado por conceitos relativistas ganha contornos de um ato de tortura: um prazer mórbido por parte do carrasco que é dependente do sofrimento daquele que padece com as respectivas dores. Em suma, sem diálogo não há espaço para a razão. Sem razão, sequer pode-se imaginar a busca pela verdade. Tudo se transforma em mera luta por prazeres: de infligir ou de escapar da dor.

Essa suspensão da razão em nome dos instintos permite a ascensão imediata de visões totalitárias. E existem cores partidárias ou inclinações teóricas que reforcem tais contextos? Em 04/12/2016, o senador Roberto Requião divulgou a seguinte mensagem em seu Twitter: “Esquerda é amor e solidariedade. Direita é egoísmo e individualismo. Simples assim”. Ora, por mais que essa expressão da intelectualidade nacional esteja repleta de equívocos de ordem teórica e prática, é inegável que Requião encarna uma visão de lutas de classes construídas desde os anos 30 do século passado. Tal ideia predominante, a de que a esquerda é a expressão do bem e a direita é a expressão do mal, foi firmemente alicerçada com a colonização da academia: as áreas de ciências sociais aplicadas e humanas, na qual o Direito é o braço legal para as rupturas institucionais internas dessa ordem burguesa-capitalista, foram tomadas de assalto por pensamentos progressistas cada vez mais antidemocráticos ao ponto de praticamente aniquilarem qualquer ideia antagônica. Com o predomínio no ambiente acadêmico, a nova produção do conhecimento político-jurídico-sociológico-filosófico formou indivíduos aptos a acreditarem nas bondades de um modelo e de crerem nas crueldades de outro. Mas o tempo e a história caminham de mãos dadas contra o vento, com lenço e com documento.

No dia 29/05/2017, o Seminário “Estado de Direito ou Estado de Exceção”, realizado na Universidade de Brasília (UNB), reuniu inúmeros intelectuais de esquerda para apresentar seus posicionamentos sobre o tipo de Estado que temos no Brasil. O senador Requião, ao se referir ao governo Temer, proferiu a seguinte frase: “O que, então, estamos esperando para cruzar o rio, para jogar a cartada decisiva de nossas vidas? Senhores e senhoras, universitários aqui presentes. Convençam-se. Não há mais espaço para a conversa e para os bons modos”. Os democráticos ali reunidos não o vaiaram. O aplaudiram efusivamente. Já a deputada federal Benedita da Silva foi mais explícita: “Quem sabe faz a hora e faz a luta. A gente sabe disso. E na minha Bíblia está escrito que sem derramamento de sangue não haverá redenção. Com a luta e vamos à luta, com qualquer que sejam as nossas armas!”. Há a necessidade de algum comentário mais incisivo? Sem dúvidas, qualquer um que ler estas frases terá a certeza de que a esquerda é amor e solidariedade, principalmente para a defesa de uma democracia?

A propósito, por falar em democracia, palavra tão cara a conservadores e liberais (aqueles em que não se encontrarão bases teóricas que legitimam algo próximo do que foi dito acima), é importante destacar que recentemente PT, PCdoB, PDT e PSOL declararam apoio a Maduro na Venezuela. Somente com muito amor à causa revolucionária e enorme solidariedade entre os pares é que se pode compreender tal apoio. Haja democracia para tolerar antidemocráticos.

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