ANO: 24 | Nº: 6158

José Carlos Teixeira Giorgis

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Desembargador aposentado e escritor
19/08/2017 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

Dylan além do horizonte

Eles eram dois, Bob e Dylan. Meninos lindos, dourados como um crepúsculo festivo; o pelo ainda rasteiro; saltitantes, olhos de brilho lúcido, ânsia de apropriação e posse; indisciplinados como as crianças no pátio; a pureza infantil; ingênuos, livres, inocentes. Assim eram os irmãos.
Triste separação. Letícia ficou com Dylan, um colega com Bob. Por um tempo se soube dele enquanto próximo; visitas trocavam; acarinhavam-se com apreço. Depois, silêncio.
Dylan foi acolhido com reserva, afinal a gente não estava habituado, morava em apartamento, experiências antigas se deram em casas.
Da infância lembro Totó, vira-lata captado da rua, há uma foto dos três irmãos subidos em um monte de areia em poseformal, ao lado Totó, morreu de acidente, o corpo na carrocinha do lixo, pobre sepulcro, depois, muito depois, gurias nascidas, veio Krishna comprada no criatório, Cocker, não sei se assim se escreve, companheira, atrevida, certa vez latiu tanto que assustou um ladrão, tinha uma caminha na beira da porta, mas era distraída, certa vez saiu de carreira para fora e foi atropelada, ficou imobilizada por dias e noites, só os olhos pedindo, choros contidos, quase um velório, mas ressuscitou, viveu mais uns anos e quando expirou foi sepultada por Luis e Henrique à sombra das árvores da casa do vô Alceu, com cruzinha e tudo, será que está lá ainda, a cruzinha, recordo que certa vez, acho, nasceu uma florzinha, a chuva derrubou a cruzinha, será que terra fez Krishna virar jasmim, ou nome dela despertou Buda para visitar a fronteirae abençoar discípula perdida neste rincão, nunca se sabe.
Dylan cresceu em beleza e graça. Imponente, atencioso, cordato. Dava orgulho vê-lo pelas calçadas, as moças paravam para aninhá-lo; as crianças chamavam seu nome, e gentil trancava o passo para atendê-las. O seu pelo áureo era amaciado, lustrado pelas mãos dos passantes a quem ele dirigia atenção e respeito. Até modelo virou. E com cachê.
No princípio, vinham buscá-lo cedo para a creche onde desfrutava o dia na companhia de iguais e desiguais. Foi tão amado que, quando a funcionária que o levava mudou de ofício e transferiu-se para o interior, vinha seguido à capital e não deixava de vê-lo, sempre às lágrimas. Finais de semana, desfilava com Lisandro, seu príncipe etíope, pelos parques da cidade, quedava-se num canto, para merecer aplausos e retribuir carinhos, vigia e amigo, conheciam as vielas, os cantos. Dylan amava espaços, corria como um libertário. Sim, também viajou para plagas estrangeiras, ouviu afagos em estranhas vozes. Quando sua dona tinha compromissos mudava de residência, adormecia aos pés da cama ou enroscado nos tapetes, quieto; abusado, bastava que alguém chegasse à mesa para sacudir a cauda em festejo ao alimento repartido, pois às escondidas, era anárquico e desobediente às rações insonsas. Tempos passando. A surpresa.
Mas responda-me, oh Deus dos exércitos, por que as humanas doenças se transmudam para tão inocentes seres? Por que, oh meu São Francisco, não se permite a eternidade viva para amigos tão fiéis? Por que vê-los invadidos por seringas e dores que deviam ficar somente para purgar os pecados? Por que assistir que decaiam, que as pernas ágeis fiquem inertes, que o abano sorridente não tenha força para saudar? Por que a agonia de olhos submissos? Por que a rigidez fria que o amanhecer desvela, elegante em partir de madrugada para não incomodar o sono?
Sim, creio no céu dos animais.
E que Dylan está logo ali passando o horizonte.

 

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