ANO: 24 | Nº: 6163

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
19/08/2017 Marcelo Teixeira (Opinião)

O senhor do anel

Era uma vez um rei que, no seu leito de morte, chamou seu filho mais velho – o sucessor do trono –, pegou na mão dele e colocou um belo e grande anel em um dos dedos. Depois pediu que ele nunca mais retirasse aquele anel do dedo exceto em momentos de extrema alegria ou de extrema tristeza e somente para ler a mensagem escrita na face interna do anel. Frisou que o filho deveria conter sua curiosidade e ler a mensagem apenas quando estivesse sentindo uma intensa euforia ou uma profunda e desesperadora dificuldade.
Bem mandado, o filho obedeceu a seu pai que dias depois veio a falecer. Assumiu o trono e pouco tempo depois teve que enfrentar uma guerra declarada por um reino vizinho. Enfrentaram terríveis batalhas e, no auge do conflito, após perder uma batalha sangrenta num dia muito frio e úmido, ele sentou no chão enlameado para descansar. Sofrendo com dores intensas em função de vários ferimentos, profundamente triste pela perda de dezenas de soldados e amigos e atormentado pela perspectiva de derrota que se desenhava em um futuro não muito distante, ele olhou para a mão, viu o anel e decidiu, enfim, ler a mensagem. Com dificuldade, retirou o anel do dedo e viu que na face interna estava escrito: “Isso também passará.”
No dia seguinte, continuou a peleja que ainda durou muito tempo, com muitas batalhas ganhas e perdidas antes da gloriosa vitória final que, enfim, encerrou o conflito. De volta para casa, os sobreviventes foram recebidos festivamente por suas famílias e pela comunidade. Foram tratados como heróis e experimentaram momentos de intensa alegria, paz e conforto. Porém, à noite, quando o rei foi deitar na sua quente e confortável cama, acompanhado de sua bela esposa, ele novamente olha para a sua mão, vê o anel, só que, desta vez, não precisou tirá-lo do dedo. Lembrou da mensagem e entendeu toda a sabedoria nela contida. Aquele momento maravilhoso também não iria durar para sempre.
Quando escutei esta estória pela primeira vez, anos atrás, fiquei muito tocado com a “moral da história”. Provocou em mim grande reflexão e, desde então, penso nela toda vez que enfrento um momento difícil ou tormentoso. Confesso que raramente lembro dela em momentos de alegria e felicidade, mas isso não tira o mérito dela que indica uma bela maneira de encararmos a vida, contrariando a letra do Tom Jobim (Felicidade, 1959) que diz “Tristeza não tem fim, felicidade sim!”.
A vida nos ensina que tanto a tristeza quanto a felicidade têm fim sim, mas, como o tempo é relativo, a impressão que temos é de que durante a tristeza o tempo passa tão devagar que ela parece infinita. Já durante a felicidade o tempo passa tão rápido que ela parece que nem existiu. Estas sensações exageradas acabam explicando a frase contida na referida música do Tom.
Como diz a sabedoria popular, a vida é como um ônibus lotado: tirando o motorista, tudo é passageiro!

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