ANO: 24 | Nº: 6110

Dilce Helena Alves Aguzzi

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Psicóloga
22/08/2017 Dilce Helena Alves Aguzzi (Opinião)

Um dia para apenas existir

Uma jovem e madura amiga me disse há pouco: “Tu precisa mesmo é tirar um dia para somente existir”. Foi com carinho que ela disse, mas afirmado, firmemente, como uma ordem. Fiquei pensando sobre a profundidade do tema, da dica, como seria fazer isso e como ficaria a vida se todos tivessem este hábito, vez ou outra mandar tudo para o alto e apenas atender as necessidades básicas de seu ser. Por um único dia, simplesmente viver, respirar, alimentar corpo e alma, dedicar atenção somente a si mesmo e nada mais.
Seria um dia inteiro sem relógio. Talvez fosse possível refletir verdadeiramente sobre o tempo.
Um dia todo sem celular e redes sociais. Poderíamos sentir nossas verdadeiras conexões e vínculos.
Um período sem exigências. Quem sabe descobriríamos nossas autênticas necessidades e disposições.
Um ciclo de 24 horas sem tarefas a cumprir desbloquearia nossas percepções profundas e verdadeiras tantas vezes encobertas em entulhos de compromissos importantes.
Um momento sem ter que pensar primeiro nos outros favoreceria o destravar da espontaneidade que existe em todos nós, mas que sem tempo livre fica sem ter como se movimentar.
O hiato de tempo sem roteiro pré-determinado pegaria nossa ansiedade de surpresa, quem sabe deixando-a desnorteada e momentaneamente sem ação.
Talvez fosse um dia de preguiça. Libertação para nossas características que vivem à sombra.
Talvez um tempo de dança, poesia, música ou silêncio em demasia. Poderia significar a libertação de palavras e gestos originais.
Uma trégua anual, uma ilha de paz e desobrigações num oceano de prazos, tarefas, coisas, pessoas e gestos a cumprir. Um tempo de revitalização, saúde e plenitude.
Uma simpática plaquinha, na porta ou até mesmo na testa, avisaria aos mais distraídos ou acostumados com nossa obediente tendência a servir: Desculpe o transtorno, mas hoje não farei absolutamente nada, nada que não esteja a fim. Sinto muito, hoje vou apenas existir.

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