ANO: 23 | Nº: 5793

Fernando Risch

fegrisch@gmail.com
Escritor
25/08/2017 Fernando Risch (Opinião)

Fui mordido por um cão

Há certas coisas que eu pensei que não acontecessem mais, haviam sido esquecidas em alguma tarde da década de 1990, entre cair de bicicleta e comprar picolé de uma pessoa com um carrinho de empurrar, chamando atenção para sua passagem enquanto sopra uma flauta peruana de lado a lado, de agudo a grave, fazendo jovens como eu ouriçarem-se, correrem para seus responsáveis para pedir dinheiro e depois sair à rua, na caça da origem do apito.

Recentemente, Bagé retornou à velha coleta de lixo, com trabalhadores dependurados na traseira de um veículo, descendo às pressas em busca do lixo e lançando ao caminhão para que fosse amassado e compactado, abrindo mais espaço para os próximos. Uma profissão digna e radical, mas de certa forma insalubre.

Não via este tipo de coleta há tanto tempo que achei que o leiteiro voltaria a trazer-nos leite no início da manhã ou um menino gritaria “Extra! Extra!”, vendendo jornais a três centavos de réis em uma esquina movimentada. Não tenho certeza se isso um dia aconteceu no Brasil, mas eu tinha a impressão que estava sendo tragado por um buraco de minhoca pondo-me ao passado.

E agora essa. Ser mordido por um cão está nessa lista de coisas que eu pensei terem acabado, mas que, impressionantemente, voltam para nos assombrar e nos mostrar que a vida não é esse espelho de ilusões que pensamos viver. Parafraseando Edgar Allan Poe, nossa realidade não é mais que um sonho dentro de um sonho. E eu fui tragado de dentro desta ilusão.

Talvez seja isso, nos acomodamos tanto a uma realidade, que não conseguimos compreender bem o mundo que nos cerca. Criamos conceitos de nossas próprias cabeças sobre vidas que não vivemos e acreditamos termos a solução para problemas insolúveis que não nos dizem respeito – ou nos infiltramos numa realidade que não é a nossa para tecer teses vindas de nossas mentes dormentes por um cotidiano modorrento.

Fui mordido por um cão, uma coisa que eu não acreditava mais acontecer. Afinal, quem é mordido por um cão em pleno século XXI? Bom, eu fui e isso me trouxe a epifania necessária para termos noção que não temos nenhuma noção sobre a realidade que nos cerca. E quanto ao cão, gostaria de tranquilizar sua dona, que eu sei ser leitora desta coluna. Não há ressentimentos, não se preocupe.

Deixe seu comentário abaixo

Outras edições

Carregando...