ANO: 24 | Nº: 6108

José Carlos Teixeira Giorgis

jgiorgis@terra.com.br
Desembargador aposentado e escritor
26/08/2017 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

A inutilidade do saber

A Biblioteca Municipal já habitou prédio da família Martins da Silva na "Avenida Sete" há alguns anos, lembro até as vitrinas expondo obras raras do acervo da entidade. Em passada noite realizava-se concorrida promoção literária. Muitos grupos se formavam no recinto.
Cercado por colegas recolhia delas (exagerados) elogios aos meus textos e admiração pela continuada dedicação à cultura, cerificados, diplomas e cursos universitários. À distância, outra amiga, diga-se, conhecida por seu modo franco (para usar termo mais ameno), ouvindo o panegírico resolveu achegar-se e intervir:
- Pois eu acho que tu és ignorante (na verdade a palavra foi outra, mais zoológica e contundente), porque somente quem não sabe nada precisa de tanto estudo!
Um silêncio pálido cobriu o ambiente. As vozes calaram. Olhares beijaram o chão. Tremeu o pó que lustrava os volumes, as estantes moveram. Ainda com a mente atilada logo reagi:
- Sabes, tens inteira razão. É lógico, se leio e estudo tanto é porque nada sei (devo até, por charme, ter citado o filósofo: “sei que não sei”, etc.).
Por falar em Sócrates narram que, enquanto lhe preparavam a cicuta, o sábio se exercitava numa flauta para aprender uma ária. Surpreendidos, os discípulos indagaram – Para que te servirá isso?
A que o mestre responde: - Para saber essa ária antes de morrer.
Na objetividade do aforisma, segundo muitos, se esconde uma verdade eterna, a vontade de conhecer, seja ela utilizada na hora da morte ou em qualquer outro momento da vida.
Infelizmente, como registra Nuccio Ordine, nas últimas décadas as disciplinas humanísticas são consideradas “inúteis”, e marginalizadas nos currículos escolares e universitários, mas, sobretudo nos orçamentos governamentais e nos recursos para fundações e entidades privadas. Porque empregar dinheiro num âmbito condenado a não produzir lucro? Porque destinar recursos a saberes que não trazem vantagem rápida e tangível?
Há saberes, ensina ele, que têm seu fim em si mesmo, e que são desvinculados de qualquer meta utilitarista, graças a sua natureza gratuita e livre de interesses, distante de qualquer vínculo prático e comercial, mas que desempenham papel fundamental no cultivo do espírito e no crescimento cultural da humanidade. Assim, é útil tudo que nos torna melhores. No mundo que se vive, dominado pelo “homo oeconomicus” certamente não é fácil compreender a utilidade do inútil e a inutilidade do útil, pois dói ver os seres humanos, que ignoram a desertificação crescente que sufoca o espírito, se consagrarem exclusivamente a acumular dinheiro e poder.
Dói, segundo Ordine, ver homens e mulheres ocupados numa corrida louca em direção à terra prometida do lucro fácil, enquanto tudo que está ao seu redor – natureza, os objetos, os outros seres humanos - não lhes suscita interesse algum, o que não lhes permite desfrutar a alegria dos pequenos gestos cotidianos e descobrir a beleza que pulsa na vida, percebendo-se melhor a grandeza nas coisas mais simples.
Todo conhecimento é útil, provam as grandes descobertas científicas que foram precedidas de observações banais; qualquer literatura sempre trará algum proveito e prazer para seu leitor; não há inutilidades quando particularmente consideradas, mesmo os saberes que não tragam vantagens são úteis. Dizia Montaigne que nada é inútil, mesmo as inutilidades.
Não abdique de sua curiosidade, pois quando a gente se coloca na situação de aprendiz na busca de si e do outro breve será um gênio.

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