ANO: 24 | Nº: 6161

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
31/08/2017 João L. Roschildt (Opinião)

Xeque-mate na tradição cristã

Conhecer as raízes de teorias significa perscrutar entranhas. Mas nem sempre as pessoas têm prazer de investigar aquilo que está obscuro, escondido e que pode, em alguns casos, ser bastante íntimo. No entanto, ao tentar lidar com o conhecimento, é salutar que a razão não encontre obstáculos intransponíveis em virtude de interesses estranhos ao seu uso, ou que determinados discursos não maquiem informações preciosas para a avaliação de suas linhas de raciocínio.

Por exemplo, ao se falar no pensamento de Marx e de Engels, nunca deve ser esquecido que o início de suas críticas teóricas (e pessoais) às estruturas sociais estabelecidas se deu contra o Cristianismo. Ou seja, eis o inimigo público de ambos e que, em larga medida os aproximou intelectualmente para que pudessem desenvolver seus projetos. Não à toa, os herdeiros dessa corrente, os progressistas, têm uma paixão desenfreada por culpar a sociedade cristã (basicamente todo o Ocidente) pelos males do mundo.

Todavia, uma simples reflexão acerca dos valores formadores da sociedade ocidental revela que diversos conceitos cristãos foram secularizados ao longo dos tempos. Em suma, estruturas de fé que em um primeiro momento eram destinadas somente aos indivíduos que possuíam vínculos com essa crença, passaram a ocupar um lugar central na maneira com que as relações sociais laicizadas ordenavam as vidas dos indivíduos. Basta pensar no peso moral, jurídico e político que a noção de dignidade da pessoa humana apresenta no mundo de hoje. E não há necessidade de crer em algo para defender esses pressupostos. Richard Dawkins, famoso biólogo ateu, defende que o ensino religioso não deve ser abolido das escolas, indicando que o estudo da Bíblia é particularmente importante para compreender o universo cultural e a história do Ocidente. Exatamente o oposto do que pensam os progressistas e seus projetos histéricos de aniquilação de religiões.

Mas não existem somente ataques exógenos. Paradoxalmente, por dentro das estruturas, também surgem vozes do “progresso”. Em março deste ano, o professor de Filosofia Stéphane Mercier da Universidade Católica de Louvain foi alvo de um processo disciplinar (e suspenso... após um protesto feminista...) por parte dessa instituição. O motivo? Ter distribuído um artigo entre seus estudantes para reflexão (sem nenhuma de obrigação de concordarem com os argumentos) no qual equipara o aborto a um assassinato. Em um condado próximo, uma determinada universidade jesuíta abriga professores de Direito que declaram publicamente apoio à legalização do aborto, que a justiça divina não existe ou mesmo que as pessoas nunca devem perdoar. Não é demais lembrar os grandes eventos promovidos por estudantes de universidades católicas próximas, que buscam “debater” (leia-se “promover”, afinal, nunca existe debate) a legalização do aborto com a anuência de suas instituições. Com esses últimos, nenhum impedimento é gerado e tudo é visto com grande naturalidade. Agora, experimente dizer que o aborto equivale a um assassinato?

No caso do professor de Louvain, a decisão de suspensão se justificou porque seu texto afrontava os valores da universidade (pasmem!)... católica! Que jogada de mestre! Com um único ataque foram encurraladas a dignidade e a liberdade de expressão! Como fugir ou se defender disso?

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