ANO: 25 | Nº: 6331

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
02/09/2017 Marcelo Teixeira (Opinião)

Ser ou não ser? Eis a questão!

Não é à toa que certas frases, retiradas de seus contextos, se tornam célebres e ganham vida própria. Na linguagem de hoje, elas viralizam, viram memes, só que, algumas delas, conseguiram toda esta notoriedade desde muito antes das redes sociais e destas expressões. Por serem muito bem construídas, com o tempo ganharam uma dimensão fantástica, imensurável, camaleônica capazes de descrever ou se encaixar em múltiplas situações, em diferentes épocas e nunca perdendo sua capacidade de provocar reflexões e variadas interpretações.
Tempos atrás, por exemplo, usei a frase de Exupéry (“O essencial é invisível aos olhos”) para descrever a crescente importância dos bens e produtos incorpóreos na sociedade contemporânea, ou seja, nada a ver com o contexto e o significado original dela, mas perfeitamente atual e aplicável aos fenômenos do mercado que estamos experimentando.
Pois bem, hoje, não pela primeira vez, volto a falar sobre a frase de Shakespeare que virou quase um slogan da obra protagonizada pelo personagem Hamlet: “Ser ou não ser, eis a questão:...”. Aqueles que se debruçaram sobre o texto inteiro iniciado por essa frase, acreditam que ele está repleto de metáforas e significados ocultos e subliminares, daí sua relevância não só como obra de arte atemporal, mas também por revelar o refinado talento de seu criador. Diante disso, sinto-me à vontade para, retirando a frase de seu contexto, também divagar sobre sua aplicabilidade na descrição dos fenômenos atuais.
Somos animais vertebrados e mamíferos e, nessa condição, somos regidos por instintos como todos os demais que se encaixam nesta descrição. Porém, por sermos primatas e, como disse Jorge Furtado em seu sensacional “Ilha das Flores”, dotados de um telencéfalo altamente desenvolvido e de um polegar opositor, somos capazes de coisas muito mais complexas que os demais animais e isso nos permitiu ocupar o topo da cadeia alimentar e transformar o planeta. De presa a predador com uma escala no Contrato Social.
Tantos dotes incluem a capacidade exclusiva de “Não Ser”, ou seja, o dilema shakespeareano só é enfrentado pelos humanos, pois todos os outros animais, vegetais e minerais, apenas “são”. Só nós podemos “não ser”. Podemos até adestrar nossos animais de estimação, mas eles nunca vão deixar de ser o que são. Podemos dar a melhor e mais nutritiva ração para o cão da raça mais nobre e cara que existe, mas se você deixar, ele vai virar a lata de lixo em busca de um ossinho, pois ele é um cão como qualquer outro vira-lata. Não existe a possibilidade deles não serem aquilo que são.
Já nós humanos, por sermos racionais, podemos controlar nossos impulsos primitivos e controlar ou ocultar aquilo que somos. Aliás, graças a esta capacidade é que conseguimos chegar aonde chegamos. Se tivéssemos desde sempre agido apenas de acordo com os nossos instintos, talvez até estivéssemos hoje em extinção, num planeta dominado por animais maiores e/ou nocivos à nossa saúde.
Nossa razão permitiu, então, o domínio e a transformação de nosso habitat através da organização social que foi viabilizada pelo controle dos nossos instintos. Só que sufocar ou reprimir nossos instintos não é uma tarefa simples. “Não ser” aquilo que somos, dá muito trabalho e ainda com sérios riscos de fracassarmos neste intento! Como já disse Baden Powell: “O homem que diz 'sou' não é, porque quem é mesmo é 'não sou'...”. Na mesma linha Ortega y Gasset sentenciou de forma mais direta: "Entre querer ser e pensar que já se é, vai a distância entre o sublime e o ridículo."
Adaptar-se a vida social já nos exige grandes esforços e sacrifícios no sentido de reprimir nossos instintos e, neste sentido, acrescentar, por nossa própria conta, mais exercícios de “não ser” é um autoflagelo difícil de entender por quem olha de fora, pois “ser” não é uma opção, mas “não ser” é!
Neste ponto fico com Martha Medeiros que disse: “Quisera eu poder contar com sete vidas para abraçar todos os jeitos de ser e de estar no mundo, mas tendo uma vidinha só, faço as escolhas que melhor me identificam, sem deixar de aplaudir as minhas renúncias.”

Deixe seu comentário abaixo

Mais notícias da edição

Outras edições

Carregando...