ANO: 23 | Nº: 5791

José Carlos Teixeira Giorgis

jgiorgis@terra.com.br
Desembargador aposentado e escritor
02/09/2017 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

Trinta

A gente não se via desde os tempos de ginásio. Vim para o internato, ele seguiu outros caminhos, tinha pai militar que se transferiu para longe. Andou pelo norte, agora era proprietário no centro-oeste e criava zebu. Apenas porque um amigo falou os nomes é que se conseguiu o mútuo reconhecimento. E aí, depois das trivialidades de hábito como que fazes; cabelos brancos; barriga; família, seguiu um repositório das lembranças, tempos do colégio dos padres, quermesses; matinê de domingo; saída das alunas das freiras, enfim.
Quando vem o momento do “te lembra?”, inundam fatos: “Quem, já morreu”?”;” Puxa, era um baita balaqueiro”; ou “não era pro meu bico” e mais outras vaidades. Logo se desembarca nos assuntos sérios.
É que no passado circulava um escabroso episódio, comentado com voz débil, cautela e olhos baixos. De soslaio, porque envolvia personagens importantes de então. E agora, quando se trocam reminiscências o tema retorna, de que fulano - assim chamarei ao colega – sabia de versão correta, que conta.
Aqui na região da Campanha, e filho do posteiro de determinada estância, cresceu infante que o destino brindou com especial anatomia. Vida modesta, forjado na lida do campo, no convívio da natureza e dos animais, como os guris da época fora seduzido, naquelas lonjuras, a desenvolver intimidade com as servis éguas, porcas mansas e ágeis galinhas, sem descartar, por óbvio, a solidão do gesto; é claro: vez ou outra surgia empregada generosa.
Quando beltrano- é também o pseudônimo que lhe darei- veio fazer o serviço militar, depois do exame médico foi incorporado ao encargo castrense, virando atração nas manobras e nos banhos. Em breve seria promovido a cabo. Sem demora, a fama também alcança aos fogões e cozinhas da cidade. As namoradas se arrebatam e exaltam os doloridos encontros. A Praça da Estação faz que não escuta os “ais e uis” noturnos.
Depois da baixa, e achando emprego no comércio, ainda mercê de seus pendores, beltrano vive na pensão de madrinha, que também dava viandas para fora, onde, depois do expediente expande seu renome tanto que as línguas (invejosas) o alcunham de “Rasputin da fronteira”, talvez para envaidecer-se ou demonstrar sapiência turística. Explica-se: os curiosos visitantes do Hermitage, em São Petersburgo, sabem que museu conserva em cristal a peça ornamental que pertenceu ao monge carismático, depois bêbado e devasso, e que teve trágica influência sobre Nicolau e Alessandra, imperadores russos.
A madrinha, esperta, alardeava as vantagens do afilhado para as jovens pouco incautas, damas libertárias, mulheres de vida livre e, pasmem, até efebos, acertando encontros nos fins de semana, recolhendo ela os estipêndios para compensar os gastos de beltrano com casa, comida e roupa lavada.
Contudo, chega inesperado momento em que o coração do ingênuo campônio desvanece de paixão por esguia moça integrante da sociedade; e, como ele possuía também beleza apolínea, atraem-se os opostos. As cargas elétricas se esfolam. Segue-se romance abrasador entre o viril escriturário e a normalista ardente, embora sem a janela de Verona. Em cenários encobertos.
Menos aos olhos de cobiçosos e espiões pusilânimes que os delatam, premiadamente, ao pai dela. Homem poderoso, herdeiro dos costumes de caudilhos do passado, entende-se ferido em sua honra. E sentencia o atrevido moçoilo. 
Para não deixar pistas contrata facínoras em país vizinho. Que vigiam beltrano e quando ele saia do emprego em noite hibernal é arrebatado para lugar ermo, é espancado, agredido, golpeado de morte. 
Moribundo, ao arrepio de todas as regras morais, os celerados decepam as indefesas partes que davam prestígio social a beltrano pretendendo levar o troféu ao mandante como prova da execução.
Mas o alarido de qualquer do povo os faz abandonar a cena. Fogem no breu. Avisados chegam amigos que, ante o cadáver, providenciam sepultamento digno aos restos do desditado patrício.
Um deles, discretamente usando caixa de papelão para sapato 44, recolhe do chão ensanguentado o frágil anexo. Que, à sorrelfa, é depositado num cemitério de campanha.
Em finados, dizem, o sepulcro é reverenciado por seita de estranhos adeptos.
Dizem.

Deixe seu comentário abaixo

Mais notícias da edição

Outras edições

Carregando...