ANO: 23 | Nº: 5741

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
07/09/2017 João L. Roschildt (Opinião)

Xeique-mate na tradição cristã

Falar sobre um legado cultural não equivale a abraçá-lo. No entanto, significa compreender que a linguagem crítica ou laudatória está alicerçada nas condições valorativas que tal bem cultural possibilita. Assim, o Ocidente cristão desponta no mundo como uma estrutura social que permitiu a secularização de conceitos, a separação entre Estado e Igreja e, sem tanta surpresa assim, a crítica às suas próprias raízes... graças aos seus próprios valores!

Richard Dawkins, biólogo ateu e crítico contundente do Cristianismo, encontrou um firme obstáculo no uso da liberdade de expressão: ousou criticar o Islamismo. Em julho deste ano, o cientista teve um evento cancelado na Universidade de Berkeley, após receber denúncias indicando o quão “ofensivo” eram seus posicionamentos contra os muçulmanos. Dawkins havia declarado que o Islã é a religião mais terrível do mundo de hoje (mesmo que ele tenha apontado que são justamente os muçulmanos os indivíduos que mais sofrem com atos de homofobia e misoginia). E o biólogo ficou surpreso; afinal, como ácido crítico do Cristianismo, nunca teve um evento cancelado por conta disso. Por fim, questionou: “Por que é legal criticar o Cristianismo e não o Islã?”. Muito pertinente.

Indagação semelhante poderia ser feita no caso da faixa de Neymar, quando ele recebeu a medalha de ouro nas últimas Olimpíadas. O COI estudava, na época, a possibilidade de enviar uma carta de reclamação ao COB, indicando que aquele ato estava em desacordo com a proibição de manifestações religiosas durante os jogos olímpicos. Mas por qual razão foi permitido o uso do hijab pelas egípcias Doaa Elghobashy e Nada Meawad em um jogo de vôlei de praia durante a Rio 2016? Ou alguém crê que tal veste não é expressão daquilo que está previsto impositivamente no Corão 24:30-31? Ou é um símbolo da liberdade feminina? Ainda sobre esportes, não é demais lembrar a pequena divulgação midiática da declaração do xeique e professor saudita Mohammed Alarefe acerca dos jogadores de futebol: “Vi vídeos de atletas, jogadores de futebol correndo, chutando, e quando eles ganham, fazendo o sinal da cruz no peito. Pergunto-me se as regras da Fifa não deveriam proibir isso”, postou em seu Twitter (que conta com 17.4 milhões de seguidores).

Parte dessa problemática pode ser explicada na (in)coerente base intelectual progressista. Essa, que permite cancelar o evento de Dawkins por apresentar um “discurso abusivo” é a mesma que luta por igualdade de gênero e por liberdade (ao ponto de afirmar em uma figura de linguagem tosca que a Igreja deve retirar seus crucifixos dos órgãos genitais alheios), mas que se omite diante de imposições de vestimentas e de penalidades cruéis contra mulheres (para não mencionar o sofrimento dos homossexuais). Tal aliança fantasmagórica e aparentemente incoerente serve ao propósito de ocaso do Ocidente e de suas “péssimas” maneiras. Há uma espécie de “inimigo em comum”, que deve ser conduzido a fórceps para a “verdade”. Como diz Flávio Morgenstern, “grandes civilizações só são destruídas quando seus símbolos, que traduzem a realidade aos homens, são derribados e perdem valor. E quase sempre por influências externas, que substituem símbolos tradicionais por outros, com ajuda de bárbaros intramuros (sic)”. Um abraço fúnebre, minha querida laicidade.

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