ANO: 23 | Nº: 5741

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
09/09/2017 Marcelo Teixeira (Opinião)

A lei do menor esforço

Luís Fernando Veríssimo, no seu artigo “O que move a humanidade”, fala sobre a tendência humana à preguiça e a importância desta tendência para o desenvolvimento da humanidade. Se não fosse a preguiça a maioria dos confortos que temos hoje não existiriam. O ser humano inventou a roda para não ter que andar, carregar peso etc. Inventou o controle remoto para não ter que levantar da poltrona ou da cama. Inventou a bomba e a caixa d’água para não ter que buscar água de balde no poço do pátio. Inventou a arma de fogo para não ter que lutar nem sujar as mãos de sangue. Inventou o computador para não ter que perder horas com milhares de raciocínios complexos, simultâneos e inter-relacionados.
Como disse Veríssimo, então, a nossa evolução está intimamente relacionada à nossa preguiça e isso é uma constante, pois, ainda hoje é fácil perceber várias criações humanas nesse sentido e nas mais diversas áreas.
O supletivo, por exemplo, permite fazer o Ensino Médio (ou 2º grau) em pouquíssimo tempo e com pouquíssimas avaliações (se não for uma só). Nessa mesma linha destacam-se os cursos à distância (no meu tempo eram chamados de cursos por correspondência) com aulas uma vez por semana. Perceba que o grande atrativo destacado nas campanhas publicitárias é esse: fazer a mesma coisa que os outros fazem em anos de esforço físico e mental, em muito menos tempo e quase sem ter que sair de casa nem levantar da poltrona. Pode até ser que ele não seja tão fácil, mas a “lei do menor esforço” é o grande atrativo e, respeitadas as opiniões em contrário, é exatamente isso que levanta suspeitas sobre a qualidade e seriedade destes cursos.
O conhecimento está ao alcance de todos e qualquer um pode ser um autodidata e desempenhar atividades complexas sem nunca ter entrado em uma sala de aula, mas isso exige um talento e uma dedicação que não é comum na maioria dos mortais. Prova disso são os vídeos, livros ou aparelhos de ginástica que vamos empilhando nos cantos de nossas casas enquanto continuamos acumulando gordura com o nosso sedentarismo, ou seja, se não pagarmos uma academia ou um personal trainer a tendência é que não consigamos persistir com as recomendadas atividades físicas. Falando nisso, para que fazer abdominais ou parar de comer se você pode perder a barriga com aqueles cintos cheios de eletrodos ou com um gel redutor de medidas? E os shakes que, além de gostosos, alimentam e emagrecem? Seus problemas acabaram, conquiste aquele corpinho de bailarino espanhol ou de halterofilista austríaco sem sair de casa e com o menor esforço e, melhor, pagando tudo em suaves prestações no seu cartão de crédito.
Aprendizado sem esforço, diploma sem esforço, corpo perfeito sem esforço, saúde sem esforço, mas tudo isso exige outra falta de esforço: a falta de esforço mental para perceber que tudo isso não passa de propaganda enganosa. Milagres não existem e “conquista” só vem antes de “esforço” no dicionário, assim como “sucesso” antes de “trabalho”.

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