ANO: 23 | Nº: 5741

José Artur Maruri

josearturmaruri@hotmail.com
Colaborador da União Espírita Bajeense bagespirita.blogspot.com.br
09/09/2017 José Artur Maruri (Opinião)

Comunicações proibidas?

“(...) O padre – Se a Igreja proíbe as comunicações com os espíritos dos mortos é porque são contrárias à religião, como estão formalmente condenadas pelo Evangelho e por Moisés. Este último, pronunciando a pena de morte contra essas práticas, prova quanto elas são repreensíveis aos olhos de Deus.
Allan Kardec – Eu vos peço perdão, mas essa proibição não está em nenhuma parte no Evangelho; ela está somente na lei mosaica. Trata-se, pois, de saber se a Igreja coloca a lei mosaica acima da lei evangélica, quer dizer, se ela é mais judaica que cristã. Observe-se mesmo que de todas as religiões, a que faz menos oposição ao Espiritismo é a Judaica, e que ela não tem invocado a lei de Moisés, sobre as quais se apoiam as seitas cristãs, contra as evocações. Se as prescrições bíblicas são o código de fé cristã, por que interditar a leitura da Bíblia? Que se diria se se proibisse a um cidadão estudar os códigos das leis de seu país?
A proibição feita por Moisés tinha então sua razão de ser, porque o legislador hebreu queria que seu povo rompesse com todos os costumes adquiridos entre os Egípcios, e que este, do qual se trata aqui, era um motivo de abusos. Não se evocavam os mortos por respeito e afeição por eles, nem com um sentimento de piedade; era um meio de adivinhação, objeto de um tráfico vergonhoso explorado pelo charlatanismo e a superstição; portanto, Moisés teve razão em proibi-la. Se ele pronunciou contra esse abuso uma penalidade severa, é que precisava de meios rigorosos para governar seu povo indisciplinado; também a pena de morta está prodigalizada na sua legislação. Apoia-se erradamente sobre a severidade do castigo para provar o grau de culpabilidade da evocação dos mortos.
Se a proibição de evocar os mortos veio do próprio Deus, como pretende a Igreja, deve ter sido Deus quem editou a pena de morte contra os infratores. A pena tem, pois, uma origem tão sacra quanto a proibição; por que não a conservaram? Moisés promulgou todas as suas leis em nome de Deus, e por sua ordem. Se se crê que Deus seja seu autor, por que não são elas mais observadas? Se a lei de Moisés é para a Igreja um artigo de fé sobre algum ponto, por que não o é sobre todos? Por que a ela recorrer naquilo que tem necessidade e repeli-la no que não convém? Por que não segui-la em todas as suas prescrições, a circuncisão, entre outras, que Jesus suportou e não aboliu?
Havia na lei mosaica duas partes: primeiro, a lei de Deus resumida nas tábuas do Sinai, e que permaneceu porque era divina e o Cristo não fez senão desenvolvê-la; segundo, a lei civil ou disciplinar apropriada aos costumes da época e que o Cristo aboliu.
Hoje, as circunstâncias não são as mesmas e a proibição de Moisés não tem mais cabimento. Aliás, se a Igreja proíbe evocar os mortos, pode ela impedir que eles venham sem que sejam chamados? Não se vê todos os dias pessoas que jamais se ocuparam com o Espiritismo, como se via antes que ele fosse discutido, ter manifestações de todos os gêneros?
Outra contradição: se Moisés proibiu a evocação dos Espíritos dos mortos, é que porque esses Espíritos poderiam vir, de outro modo a proibição teria sido inútil. Se eles podiam vir naquele tempo, podem ainda hoje; se eles são os Espíritos dos mortos, não são, pois, exclusivamente demônios. É preciso ser lógico antes de tudo”.
(Referências: Texto extraído da obra “O Que é o Espiritismo” de autoria de Allan Kardec. Publicado em Paris no ano de 1869. Editado pela IDE Editora, 2009. p. 82-83)

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