ANO: 23 | Nº: 5791

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
14/09/2017 João L. Roschildt (Opinião)

"Cheque-mate" na tradição cristã

Se é verdade o que afirma a propaganda da Mastercard, existiriam itens que o dinheiro não compra. Tais coisas poderiam estar vinculadas a sensações, virtudes ou valores inegociáveis. Submeter tudo à possibilidade de compra equivaleria a transformar o dinheiro, como acreditava Marx, em um “alcoviteiro entre a necessidade e o objeto”, um ser onipotente que se apropria de tudo que pode adquirir. De acordo com Georg Simmel, isso seria um resultado da dinâmica intrínseca que o dinheiro opera na modernidade: a impessoalidade e o nivelamento dos atos humanos a meras relações comerciais tende a destruir os laços mais profundos entre os indivíduos. Sem trocas culturais valiosas que possam apresentar um sentido a existência humana, a tendência é a submissão... a quem?

A simbologia do futebol é sintomática para o Ocidente. Esporte bastante valorizado entre as massas, alvo de inúmeras ações de marketing e operando com cifras astronômicas entre os maiores times, também faz uso de símbolos para expressar visões de mundo.

Pois o Real Madrid tomou uma atitude icônica no início deste ano. Em razão de acordos comerciais estratosféricos com o grupo varejista Marka, que produz, distribui e vende produtos do clube madrilenho em seis países do Golfo Árabe, os merengues optaram por retirar a Cruz de Cristo de seu escudo. Motivo? De acordo com Khaled al-Mheiri, há de se cuidar das sensibilidades culturais de determinados povos (muçulmanos) que não aceitam bem a Cruz. Situação idêntica àquela que foi executada em 2014: em nome de um patrocínio de R$ 295 milhões com o Banco Nacional de Abu Dhabi, foi ofertada uma versão “laica” do uniforme em países árabes. Resta uma dúvida: caso algum desses investidores resolvessem patrocinar o Santa Cruz (de Recife), qual seria a estratégia de marketing?

Em janeiro de 2016, o primeiro-ministro italiano, Matteo Renzi, foi acusado de tomar uma decisão constrangedora. Durante visita do presidente iraniano Hassan Rouhani, em respeito a algum tipo de sensibilidade cultural, optou-se por cobrir com painéis a Vênus, um Eros com Arco, uma Leda e o Cisne, para que não fossem mostradas imagens de nudez ao líder religioso-político. A genitália do cavalo de Marco Aurélio também sofreu uma “castração”: a estátua foi removida para um espaço onde a delegação iraniana não fosse transitar. De acordo com o jornal português Diário de Notícias, outras estátuas não sofreram ações desse tipo por não estarem no caminho do presidente do Irã. Mas qual a razão de tudo isso? Itália e Irã assinaram acordos comerciais de mais de € 17 bilhões. E Renzi é reincidente. No ano anterior, durante visita de negócios do príncipe herdeiro dos Emirados Árabes Unidos (país que havia adquirido recentemente a Alitalia por meio da Etihad) a Florença, o premier decidiu cobrir obras de arte que mostrassem alguma nudez. Meros símbolos?

As tradições razoáveis que ofertam uma vida melhor e que sobreviveram aos testes do tempo são valiosas exatamente por isso: deixaram um legado benigno geração após geração, possibilitando um aprimoramento social. Talvez Denis Diderot tenha captado parte do problema: “Em qualquer país em que o talento e a virtude não produzam progresso, o dinheiro será a divindade nacional”. Ou será que até mesmo a “divindade” e a cultura não podem ser alvos de compra e venda?

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