ANO: 24 | Nº: 6109

Fernando Risch

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Escritor
15/09/2017 Fernando Risch (Opinião)

Se você não sabe sobre o que vai falar, não fale

A cada dia, qualquer fato ocorrido em qualquer canto do Brasil torna-se uma bandeira, uma fagulha suficiente para criar uma guerra dicotômica estúpida entre dois lados que não estão nem um pouco perto num prisma político e ideológico. No domingo, essa fagulha se acendeu mais uma vez com o caso da exposição Queer no Santander Cultural, em Porto Alegre.

Promovido pelo MBL – movimento que se diz apartidário, financiados por partidos e que já elegeram alguns dos seus pelo Brasil, mesmo com um discurso de se manter fora da política – o protesto contra a exposição é de uma imbecilidade ímpar. Imbecil propositalmente, para que um debate sem nexo seja criado e que os dois lados distantes da disputa se engalfinhem. É imbecil muito também pelas razões apresentadas. Segundo o movimento, a exposição incentivaria a pedofilia e zoofilia.

A arte acusada de pedofilia trazia uma espécie de litografia de duas crianças, dispostas lado a lado, cada uma com uma pose, ambas com a frase “Criança Viada”. Pra quem não sabe – e você pode pesquisar no Google -, Criança Viada é um Tumblr criado em 2013 em que pessoas enviavam fotos suas quando pequeno em que parecessem quebrar os padrões de gênero. E a arte, nada mais que um desenho de fotos do próprio autor, fazia o mesmo: trazer ao debate a questão de gênero, o que não tem nada – absolutamente nada – a ver com sexualidade ou sensualização de crianças. Você pode não gostar da arte, achá-la de mau gosto, mas chamá-la de incentivo à pedofilia é desonestidade.

Nas obras que retratavam a zoofilia – e realmente retratavam – eram pinturas no estilo medieval, retratando pessoas da sociedade atual. Se você for ao Louvre, na França, além de uma imensa fila para ver a Mona Lisa a dois quilômetros de você, você encontrará muitas reproduções assim. Se você for ao templo budista em Três Coroas, encontrará desenhos nas paredes do templo de diversos órgãos genitais. E, é claro, não custa alertar, se alguém se sentir incentivado a praticar zoofilia porque viu um desenho torto e desengonçado de alguns centímetros, visivelmente tem problemas mal resolvidos com a própria sexualidade. Mas na terra onde “barranquear” é motivo de orgulho para alguns, creio que a zoofilia seja o menor dos males.

E o problema real não é este. A grande questão é o que se sucede depois de acusações tão descabidas e exageradas são as pessoas que não viram as obras ou sequer um dia pisaram em um museu e que agora destilam teses sobre o que é e o que não é arte. Engolem o discurso feito por meia dúzia, aceitando-o como verdade absoluta e se virando contra qualquer um que um dia se poste frente à liberdade artística.

Mais que isso: há pessoas que vendo as obras, simplesmente pela sugestão de alguém ter-lhes dito que algo é um incentivo à pedofilia, aceitam aquele argumento. Talvez, se ninguém tivesse dito, a obra simplesmente passaria em branco, batido. Ou talvez a pessoa dissesse que ela era feia e de mau gosto, mas jamais a elevaria a este patamar. Não custa lembrar também que algumas obras criticadas na exposição tinham mais de 100 anos. Isso, mais velho que o seu avô, mas só agora, em 2017, causa espanto.

O debate poderia ter sido com inteligência. Trazer os prós e contras de uma exposição polêmica na sua essência – como a arte deve ser: transgressora –, mas não. Aqueles que criaram esta guerra entre os fervorosos contra a “pedofilia” e os que defendiam a exposição com unhas e dentes, não tinham a intenção de debater, de fazer pensar. Tinham a intenção de criar um atrito violento o suficiente para dar força política aos políticos do seu lado e tentar transformar aqueles que estão no outro lado em defensores da pedofilia, ou seja, a escória da humanidade.

Somos todos massa de manobra e estamos juntos neste turbilhão de mentiras que se alastram todos os dias no Brasil. Uma coisa é certa e todos nós deveríamos fazer: se nós não sabemos do que estamos falando, até termos total discernimento dos fatos, após avaliá-los com a razão, devemos nos calar. Inclusive eu, caso algum especialista detecte erros crassos nas linhas acima.

 

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