ANO: 25 | Nº: 6378

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
16/09/2017 Marcelo Teixeira (Opinião)

Gêneros culturais

Quando nascemos, a única diferença visível entre os sexos é a genitália. Na puberdade a mutação das cordas vocais dá início à distinção natural entre os sexos que, logo depois, fica mais pronunciada ainda, sobretudo pelas formas femininas com o crescimento dos seios e o alargamento dos quadris em comparação com a cintura. Já os homens, via de regra, têm mais pelos no corpo e são maiores e mais fortes que as mulheres, características estas que se repetem em quase todos os mamíferos (maiores, mais fortes e mais agressivos que as fêmeas). Pronto! Aqui terminam as distinções naturais entre os sexos. O resto tudo é cultural: cabelos e unhas compridas, depilação, vestidos, batom, salto alto, véu, maquiagem, esmalte, sutiãs, calcinhas etc, para as mulheres; cabelos curtos, tronco desnudo, cuecas, sapatos, nada de depilação nem de maquiagem para os homens.
No passado as distinções impostas pela cultura eram ainda mais marcantes quando, por exemplo, mulheres não usavam calças compridas, nem cabelo curto e homem de brinco, só se fosse pirata.
Paralelamente a essas distinções externas ainda vem uma série de questões comportamentais, competências, posturas e papéis típicos deste ou daquele sexo. Alguns decorrentes da natureza e construídos ao longo de milênios da trajetória humana até a civilização contemporânea. Outros, reprimidos ou potencializados pelo exercício e aprimoramento da atividade ética e política que o nosso telencéfalo altamente desenvolvido proporcionou durante a construção das complexas organizações sociais do qual fazemos parte hoje.
Feita esta introdução, começo a falar sobre “gênero” a partir de uma declaração do recentemente falecido Astolfo Barroso Pinto, a Rogéria, que afirmou certa vez: “A vida, 24 horas vestida de mulher, é um saco!”. Não é à toa que Rogéria gozava do respeito e consideração que raros pares dela gozavam. Era transparente, sincera, falava, sem vitimismo nem "mi-mi-mi", sobre sua condição, jamais negando sua natureza masculina e sua admiração pela alma feminina.
Referida afirmação foi uma prova inequívoca disso, ou seja, dá muito trabalho para um homem parecer com uma mulher, sobretudo para manter esta aparência exterior imposta culturalmente às mulheres. Sim, pois ela falou que o que dá trabalho é se “vestir” de mulher, e a forma de “vestir”, salvo melhor juízo, é decorrente da cultura e não da natureza.
É aqui que eu pego o gancho para falar do assunto gênero, pois ainda que possamos admitir que determinados homens tenham uma alma feminina ou que determinadas mulheres tenham uma alma masculina, isso não os obriga a parecer externamente com o sexo oposto. Travestir-se é uma opção cultural, é aderir a uma moda, perfil, papel imposto culturalmente ao sexo oposto. E, respeitosamente, isso fica tão na contramão que além de dar um imenso trabalho, como disse Rogéria, via de regra fica muito longe de esconder a verdadeira natureza da pessoa, dadas as distinções inescapáveis determinadas pela genética.
Como disse Letícia Lanz, psicanalista transgênero contrária à “ideologia de gênero”: “Gênero existe porque a sociedade organiza pessoas em torno de padrões de comportamento. Não existe um vínculo natural entre o sexo de nascimento e o exercício desses papéis.” Millôr Fernandes afirmou sabiamente que “todo homem nasce original e morre plágio” para descrever a influência que todos nós sofremos por viver em sociedade e chegarmos ao fim da vida completamente condicionados por ela. Assim, a única diferença entre se identificar e não se identificar com o sexo genital, é que, no segundo caso, a tarefa será bem mais difícil pois, além da adaptação às exigências culturais impostas ao sexo oposto, ainda vai bater de frente com a sua própria natureza.
Assim, não vejo o gênero como decorrência de uma força natural incontrolável ou irreprimível. Por ser uma construção cultural, decorre de uma influência do meio, revelador de uma preferência por um modelo ou padrão que não necessariamente é aquele que a sociedade designou àqueles que ostentam o mesmo sexo genital.

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