ANO: 24 | Nº: 6163

José Carlos Teixeira Giorgis

jgiorgis@terra.com.br
Desembargador aposentado e escritor
16/09/2017 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

Minicontos

Pois num destes sábados vadios aproveitei para frequentar curso sobre minicontos.
Uma de minhas melhores experiências aconteceu há vinte anos quando aluno da oficina literária de Luiz Antonio Assis Brasil aonde apurei o que ensinaram Frederico Petrucci, no ginásio; Irmão Robertinho, no científico; o gosto pela leitura; a disciplina em rascunhar crônicas; e, depois, as aulas com Lea Masina. Não descarto livros sobre estilo e redação, sempre há algo a aprender; e os depoimentos dos escritores revelando seu modelo de escrita criativa, até mesmo as horas de concentração; uso de lápis, canetas e teclas; o tipo de bloco ou página em que a inspiração opera, já que tudo importa quando a folha virgem desafia.
O conto, como gênero – caso assim possa ser qualificado - é a narrativa breve ou relato curto, cuja intensidade e efeito para o leitor deixa uma “estranheza”, pois seu íntimo envolve, além da história aparente, também a que se oculta.
Se o genitor tem dificuldades em identificar-se seu descendente (miniconto) não foge da controvérsia, como expôs Marcelo Spalding, o talentoso instrutor do seminário.
Leciona aquele escritor que o miniconto se distingue de outros produtos concisos, como o haicai ou a anedota, dizendo ter forma compacta, no máximo uma página ou página e meia, com um enredo com princípio, meio e fim (Lagmanovich, argentino); que abranja feitio narrativo, com personagens, conflito e fechamento, tudo em menos de uma página (Ivo Barroso); uma artilharia ligeira, mais rápida, reta e metódica (Poe); que seja minimalista - movimento do “menos é mais”- onde se usem reduzidos elementos para desencadear um máximo de efeito artístico (Batchelor), verdadeira simplificação das formas e restrição dos elementos de linguagem (Carver).
Essa “novela curta” ou “short story” se desenvolveu especialmente nos Estados Unidos em jornais onde se tornou o componente adequado, salientando-se as obras de Raymond Carver, cujos contos, em regra, não ultrapassam quatro ou cinco páginas (entre eles “O pai”, de duas páginas, clássico minimalista). Para outros, “O morto”, de Borges, com suas 2.300 palavras, ainda se inscreve no panteão dos melhores, como os de Cortázar, Garcia Márquez, Calvino ou Hemingway.
Para Jerome Stern não são necessárias mais de 300 palavras, ou uma página datilografada, para ter-se um conto: basta relatar uma história completa, com verbo de ação e sequência, em que o autor, depois “com uma caneta vermelha” risque todos os adjetivos e advérbios que encontrar, salvo os fundamentais, segundo conselho de Jason Gurley (e que Lea Masina denominava “capinar o texto”; Assis Brasil pedia que se procedesse a uma “leitura em voz alta”, para eliminar os “ecos sonoros” e a “repetição de verbos ou palavras”).
Entre os melhores minicontos está “O dinossauro”, do hondurenho Augusto Monterroso:
“Quando despertou, o dinossauro ainda permanecia ali”.
No fim da aula, corajosamente, ensaiei uma tentativa:
“Três e meia. Ela enxuga a lágrima, fecha o esquife. E vai ao banco.”
Que auditório ouviu com obsequiosa atenção.
Fonte: Anotações das aulas de Marcelo Spalding, Curso Metamorfose, 2017.

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