ANO: 25 | Nº: 6386

Dilce Helena Alves Aguzzi

dilcehelenapsicologa@gmail.com
Psicóloga
19/09/2017 Dilce Helena Alves Aguzzi (Opinião)

Saber sair de cena é para os bons

Quando criança ouvi pela primeira vez a história da atriz Greta Garbo, que abandonou a carreira no auge de seu sucesso em plena era de ouro de Hollywood. Causou-me interesse e admiração instantânea pela coragem e ousadia. O que a teria motivado? Algumas figuras públicas de lá prá cá seguiram seu exemplo. Até hoje muitos não entenderam, outros se surpreenderam, outros tantos criticaram... O fato é que ela nunca voltou e parece que encontrou sentido para sua existência longe dos holofotes. Difícil de acreditar que isto ocorreu na década de 1940. Mais difícil de compreender, principalmente nos tempos de notoriedade instantânea em que vivemos.
Atualmente, que tanta gente está disposta a absolutamente tudo para entrar e permanecer em evidência, em qualquer área de atuação, abandonar o centro do palco por vontade própria parece ser para a maioria não só uma burrice incrível como uma ação imponderável. Pois, eu creio que entre abandonar em definitivo a cena e a obrigação eterna de permanecer no centro das atenções existe a necessidade de descansar a imagem, encontrar outro caminho, outras versões de si mesmo, ver o mundo por outro ângulo, variar.
Temos que estar e permanecer no lugar que faça sentido para nós e não para os outros.
Seguir novos interesses é um ato de coragem que garante renovação, jovialidade e espontaneidade.
Nada mais patético que manter posição por orgulho e não por interesse genuíno. Defender status é muito pesado, previsível, chato e cansativo. Saber abandonar é se reconhecer e investir no novo.
Quem se reinventa se mantém ocupado e no centro, não da atenção alheia, mas da própria existência, o que me causa enorme admiração.
Há algo de original e genial no gesto de Greta Garbo, não só por ignorar solenemente o desejo dos outros de estar no lugar dela, mas, sobretudo por saber escutar e seguir a própria voz interior. Quem se realiza também se transforma. Há muitas fases na vida, não há necessidade de fixar posição em uma só, dia após dia, ano após ano. Estar vivo é constantemente estar em movimento e em transformação.

Deixe seu comentário abaixo

Outras edições

Carregando...