ANO: 23 | Nº: 5793

Fernando Risch

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Escritor
22/09/2017 Fernando Risch (Opinião)

Ah não, Michel, tudo tem limite

Para começar, presidente, já não vou com sua cara. E não vou há muito tempo, por diversas razões. A principal delas, obviamente, é sua ascensão ao poder. Mas vou deixar isso para lá neste momento. Nossa relação nunca foi e nunca será boa (e tenho certeza disso).

Às vezes penso que você, Michel, senta-se na cadeira a qual surrupiou na mão grande, emula uma escultura de Rodin e pensa: “o que eu posso fazer hoje para incomodar e infernizar as pessoas?”. Começou com as reformas, num objetivo obtuso de salvar a economia. Ninguém engoliu (tudo bem, alguns engoliram). Mas hoje temos que ouvir da boca do Meirelles um pedido de reza para que os indicadores econômicos melhorem. É uma verdadeira canalhacracia, como diria André Dahmer. Mas tudo bem, também. Estamos na luta. Somos brasileiros etc, aquele papo chato de sempre.

Então temos uma sequência de trambiques e idas e vindas. De extinção de ministérios e a recriação dos mesmos, de ministros investigados, de gravações de escutas, de tentativa de perdão de dívida de megaempresas, de cortes agressivos na educação, de compra de votos de deputados com emendas para salvar a própria pele na abertura de um processo de impeachment... Olha, eu nem me lembro de tudo, mas tem tanta coisa. O senhor parece não conseguir acertar muito no alvo. Mas, né, o Brasil dá sinais de crescimento e a inflação diminuiu. É isso que importa, eu acho. Talvez, não sei. Sigo atônito com tudo.

Aí vem a corrupção. E nesse sentido, presidente, o senhor bateu recordes. Alguns dirão que não, que há piores por aí, Lula, Aécio etc, mas até transitarmos da denúncia para as cédulas, o senhor é o medalha de ouro. Medalha de ouro em dinheiro na mala. Medalha de ouro em dinheiro no apartamento. Medalha de ouro em formação de quadrilha. E que quadrilha. Mas até isso, nós, meros brasileiros atordoados, já estamos anestesiados de ver. Já passa batido. O senhor não dá uma dentro. Mas, vá lá, vamos deixar o meio milhão da mala, os cinquenta milhões do apartamento e o, aparentemente, trinta e tantos milhões de algumas ilicitudes na Petrobras. Deixa pra lá, faz de conta que não vimos.

Mas daí eu estou tranquilo, na minha, trabalhando para pagar a dívida pública brasileira com os bancos e vejo a seguinte notícia: “Governo estuda acabar com o horário de verão”. Ah não, Michel, tudo tem limite. Eu sei, o relatório vem dos técnicos, que não vêem mais razão na alteração do horário por não criar economia real de energia elétrica, mas é o senhor que tem a caneta e é quem irá decidir.

Não seja mau assim, Michel. Nós assistimos às suas barbáries diárias quietos. Volta e meia gritamos um “Fora Temer!” pra dar sinal de vida e fingir que estamos preocupados. Mas isso não. Acabar com o horário de verão é baixo, é vil. Quero dormir mal, uma hora a menos todos os dias. Quero ter sol às nove horas da noite. Quero sentir a brisa do verão me convidando para sentar num bar às seis da tarde de uma terça-feira. Quero acordar mal no outro dia e fazer tudo de novo. Quero viver com o propósito de esquecer tudo de ruim que acontece por aí. Tire-nos tudo, só não nos tire nossa capacidade de sorrir de frente para o diabo.

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