ANO: 25 | Nº: 6255

José Carlos Teixeira Giorgis

jgiorgis@terra.com.br
Desembargador aposentado e escritor
23/09/2017 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

A biblioteca de Dom Rigoberto

Confesso a compulsão por livros, possivelmente cheguem a dez mil (duas residências), sem perspectiva de serem descartados ou que diminua a ansiedade de compra; além de que o signo desfavorece, eis que, segundo os astros, quem nasce no segundo decanato de julho está fadado a guardar coisas, delas não se desfaz.
O afeto por eles é táctil, também olfativo; e cada qual recorda um episódio; uma lembrança; ou interesse por assunto especial; a recomendação de alguém.
Esperava negociar o bloco jurídico com faculdades ou estudiosos, que não ficaram cativos, hoje tudo está na virtualidade; a doação para entidades públicas foi rechaçada, eis selecionam, estão sem espaço; considero crime a trituração industrial, os pobres volumes sendo eviscerados na cirurgia papeleira; e não pretendo outorgar os que todos aceitam.
Problema é insolúvel que obsta reforma do apartamento, pois habitam várias peças, escritórios, quarto da empregada, sala, quarto (poucos), banheiro de serviço (apenas os adequados).
Todavia, consola a posição de dom Rigoberto, personagem de Vargas Llosa, que, passado em anos, se apaixona pela sensual Lucrécia, a quem autoriza obras em sua casa de viuvez.
A dama contrata um arquiteto que faz projeto. Levado ao dono, dom Rigoberto expede instruções que devem ser rezadas como evangelho pelos amantes dos livros e que diz assim:
“- Nosso mal-entendido é de caráter conceitual. O senhor fez este bonito desenho de minha casa e de minha biblioteca partindo da suposição - muito difundida - de que em um lar o importante são as pessoas, em vez dos objetos. Não o critico por fazer seu esse critério, indispensável para um homem de sua profissão que não se resigne a prescindir dos clientes. Mas minha concepção de meu futuro lar é a oposta. A saber: neste pequeno espaço construído que chamarei de meu mundo e que meus caprichos governarão, a prioridade básica caberá aos meus livros, quadros e gravuras; nós, as pessoas, seremos cidadãos de segunda. São esses quatro milhares de volumes e a centena de telas e estampas que devem constituir a razão principal do desenho que lhe encomendei. O senhor subordinará a comodidade, a segurança e a conveniência dos humanos às daqueles objetos.
É imprescindível o detalhe da lareira, que deve poder transformar-se em forno crematório de livros e gravuras excedentes, a meu critério. Por isso, ela deve situar-se bem perto das estantes e ao alcance de meu assento, pois eu gosto de bancar o inquisidor de calamidades literárias e artísticas sentado, e não de pé. Explico-me. Os quatro mil volumes e as cem gravuras que possuo são números inflexíveis. Nunca terei mais, para evitar a superabundância e a desordem, mas nunca serão os mesmos, pois irão se renovando sem cessar, até minha morte. Isso significa que, para cada livro que acrescento à minha biblioteca, elimino outro, e cada imagem-litografia, madeira, xilografia, desenho, ponta-seca, mixografia, óleo, aquarela, etc.- que se incorpora à minha coleção desloca a menos favorecida entre as demais. Não lhe escondo que escolher a vítima é árduo e, às vezes, lancinante, um dilema hamletiano que me angustia durante semanas, meses, e depois meus pesadelos reconstroem. No início, eu doava a bibliotecas e museus públicos os livros e gravuras sacrificados. Agora os queimo, daí a importância da lareira.”
E conclui: “- Construo esta casa para padecer e me divertir com eles, por eles e para eles. Faça um esforço por me imitar durante o limitado período em que trabalhará para mim. Agora, desenhe”.
Embora discorde da incineração para manter limites. Não se pode discordar do credo rigobertiano.
Como dizia Jorge Luis Borges, sempre se imagina o paraíso como uma grande biblioteca.

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