ANO: 25 | Nº: 6406

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
28/09/2017 João L. Roschildt (Opinião)

Você já foi “sarrado”? Não percebeu?

Estruturas de linguagem nem sempre obedecem aos padrões de refinamento previamente estabelecidos. Muitas vezes, no ímpeto de criação ou até mesmo diante da inerência da vida que permeia os atos de fala, regionalismos, neologismos e estrangeirismos são utilizados para um desenvolvimento atualizado dos processos de comunicação. Mas, como a língua falada e escrita, em algum ponto essencial, envolve atividade criativa, ela acaba se comparando a um desenvolvimento artístico. O que não se pode olvidar é que até mesmo a arte deve encontrar limites, sob pena de não poder ser classificada como arte. Afinal, se tudo é arte ou cultura, nada passa a ser. É um paradoxo bastante comum para aqueles que conhecem minimamente regras lógicas e que é amplamente desconhecido para alguns intelectuais: se tudo é relativo, perde-se a noção de verdade.

Apesar de o Brasil possibilitar uma ampla difusão do conhecimento por meio da internet e apesar dos índices relativos à alfabetização e escolaridade estarem melhorando, os sinais de aculturação se esparram na mesma velocidade. Vejam bem: o que vem a ser uma “sarrada”? Uma espécie de termo de altíssima qualidade para identificar uma esfregada (ou “enrabada”) e que, no funk, é seguido de um gestual em que o quadril se inclina para frente no exato momento em que as mãos são conduzidas até a sua direção. Na modalidade “sarrada no ar”, popularizada por MC Crash (no videoclipe as pessoas se comportam em um misto de movimentos epilépticos – algo que deixaria MC Serginho e Lacraia parecendo crianças brincando em um parque – entremeado por sinais que simulam revólveres), a “dança” é acompanhada de um pulo. Um verdadeiro salto cultural. Algo que um intelectual-relativista-gourmet, que não conhece uma definição razoável sobre beleza ou arte, não hesitaria em classificar como exercício da livre expressão cultural.

Mas nem só de gestos extravagantes e termos vazios vivem os zumbis contemporâneos. Há uma intromissão severa na vocalização das palavras. Basta acompanhar algumas “músicas” do funk nacional e que são idolatradas por adolescentes e jovens (público que, na maior parte dos casos, ignora – no amplo sentido do termo – essa coluna) em que o cérebro não passa de um emaranhado de pregas e rugas sem serventia em suas cabeças. É sempre instrutivo e agradável aos ouvidos ouvir um “Cê acredita?”, um “quando ela bate/mexe/joga ‘ca’ bunda no chão” ou um “olha o que ela faz no baile funk ‘co’as’ amiga”. Poucos exemplos? Procure pelos videoclipes produzidos por KondZilla, que a tragédia está garantida.

Frear tal declínio é praticamente impossível. Enfrentar tal perspectiva maléfica é um ato vocacionado e inglório. Ou será que ocupar a 59º posição (entre 70 países) em leitura no último PISA não tem absolutamente nada a ver com tudo isso? Lembrando Theodore Dalrymple, “no passado a ignorância era puramente passiva; mera ausência de conhecimento. Recentemente, no entanto, assumiu uma qualidade mais positiva e maligna: uma profunda aversão por qualquer coisa que cheire a inteligência, educação ou cultura”. Trocando em miúdos e com uma linguagem mais popular, nunca Naiara Azevedo e MC Kevinho estiveram tão certos: “tô (sic) sarrando em você mentalmente... tô (sic) sarrando em você lentamente”. Realmente, a “enrabada” foi no intelecto e de forma lenta.

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