ANO: 25 | Nº: 6308

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
30/09/2017 Marcelo Teixeira (Opinião)

O problema é a catequese

Certa vez me perguntaram qual a razão de ser colorado e eu não demorei a responder que era colorado por influência do meu pai. Na sequência, a pessoa que me questionou comentou que isso é padrão, ou seja, a maioria dos torcedores de determinado time de futebol, o é por influência de seus genitores.
E isso não ocorre só com os times de futebol, mas, também, as preferências musicais, os hábitos, costumes e até a dieta, o que leva a explicar que pais gordinhos tendam a ter filhos gordinhos e pais magrinhos tendam a ter filhos magrinhos, por exemplo. Isso parece indicar que se trata mais de uma influência do meio do que de uma herança genética.
Todavia a experiência demonstra que os filhos não são tão doutrináveis como este breve relato faz parecer ou como pensam alguns pais. A prova disso é que o meu pai colorado teve mais três filhos e dois, hoje, são gremistas. Isso não significa que eles não foram doutrinados, mas comprova que a doutrinação que funcionou comigo, não funcionou com eles.
E assim é a vida em sociedade: uma constante troca de influências da qual é impossível escapar, mas que, graças à personalidade de cada um, nem sempre é determinante. São tantas as influências do meio que, como sentenciou Millôr Fernandes: “Todo homem nasce original e morre plágio.”
Ainda que Saramago tenha dito que tentar convencer outra pessoa seria um desrespeito, “uma tentativa de colonização do outro”, nosso agir social necessariamente faz isso, se não com palavras, com atitudes. Não temos controle sobre a leitura que os outros fazem a respeito daquilo que somos, fazemos ou dizemos. Mesmo sem querer, posso influenciar os outros, tanto quanto posso ser influenciado por pessoas que sequer imaginam que eu exista. Isso é mais evidente na juventude quando elegemos nossos ídolos como modelos.
Quando crianças, nossos modelos e ídolos são os nossos pais e as demais pessoas do nosso convívio cotidiano. Ao crescermos, os modelos e ídolos mudam e não raramente com a intenção deliberada de afrontar o exemplo dado pelos nossos pais, comprovando a afirmação inicial de que os filhos não são tão doutrináveis. Contudo, mesmo sofrendo influências nefastas, a base dada pelos pais fica lá na essência da nossa personalidade, pelo menos latente, prontinha para aflorar no futuro quando a vida nos demonstrar, ainda que tardiamente, que nossos pais sempre tiveram razão. E aí, apesar de termos feito tudo que fizemos, seremos como nossos pais.
Influenciar, dar exemplo, convencer, então, é normal e inevitável, faz parte da vida. Porém, quando há intenção e exagero nesta tentativa, viramos catequistas e, como diz Leandro Karnal: “catequese é sempre chata”. É claro que, aqui, a palavra “catequese” não está relacionada só à religião, mas enfatiza o exagero na conduta de tentar arregimentar pessoas para o seu rebanho. Vegetarianos, homeopatas, maconheiros, bolsominions, ecologistas, militantes LGBTT, petralhas, coxinhas etc, todos invariavelmente chatos ao tentar convencer os outros a aceitar ou aderir às suas escolhas ou preferências. E se o assunto for religião, o catequista crente pode ser tão insuportável quanto o catequista ateu.
O problema não é a sua preferência, escolha ou missão, mas sim o exagero na tentativa de convencer os demais e, pior, a intransigência com a divergência, ou seja, como disse Karnal: “não há diálogo possível com quem é dogmático” e os catequistas radicais, via de regra, estão tão convencidos de suas verdades que perdem a capacidade não só de traduzir, em linguagem convincente, tanta convicção, mas, também, de compreender, aceitar ou respeitar as verdades alheias.
Assim, seja o que você for, prefira o que preferir, escolha o que escolher, por favor, só não seja chato, intransigente e, assim, intragável.

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