ANO: 25 | Nº: 6399

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
05/10/2017 João L. Roschildt (Opinião)

Abyssus abyssum invocat

O Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA) atesta: 50,99% dos nossos estudantes não possuem capacidades mínimas para interpretar, refletir, analisar e agrupar informações em um texto escrito. Com relação aos critérios acima, somente 0,14% dos estudantes apresentam o nível máximo. Na área da leitura, entre 70 países analisados, o Brasil ocupa a 59ª posição. Tal informação, divulgada no início deste mês, foi resultado de uma avaliação feita no ano de 2015 com 23.141 estudantes, entre 15 e 16 anos, de todo o Brasil, o que equivale a 73% do universo total de discentes dessa faixa etária. Em suma, os dados (sempre eles, cruéis e implacáveis!) são expressivos e ofertam um diagnóstico bem conhecido para os que lidam com o ensino (em todos os níveis).

Sem me atrever a explicar as origens fundamentais desse problema, que repousa nos desenvolvimentos práticos das teorias construtivistas e na paixão desenfreada das faculdades de pedagogia por Piaget, Vygotsky e Paulo Freire, creio que um firme tentáculo do catastrófico resultado descrito se encontra na simplificação. Para quem lida com o mundo do Direito, isto é facilmente demonstrável. No campo jurídico, os principais manuais acadêmicos utilizados nas salas de aula são sempre acompanhados do nome “simplificado”, “esquematizado” ou “descomplicado”. E isso em todos os cursos de Direito esparramados pelo Brasil. Esse vírus não é exclusividade de um curso em específico (ou de alguns). O que varia é a amplitude da afecção.

Toda essa transversalidade (termo da moda universitária em que se quer afirmar tudo sem dizer rigorosamente nada de concreto) de informações me faz recordar outra simplificação. No nem tão longínquo ano de 2014, a escritora Patrícia Secco desenvolveu a seguinte ideia: lançar uma versão da obra “O alienista”, de Machado de Assis, trocando palavras complexas por sinônimos mais simples, alterando as pontuações originais com o objetivo de tornar a referida obra acessível. Ao explicar porque os jovens não gostam do referido autor, ela foi taxativa: “Os livros dele têm cinco ou seis palavras que [os estudantes] não entendem por frase. As construções são muito longas. Eu simplifico isso”. E para mostrar como tudo isso é um projeto das instituições brasileiras, o referido livro obteve incentivos fiscais através da famigerada Lei Rouanet. Entre o reforço de um alto padrão cultural e um subproduto, tanto no ensino do Direito como na Literatura, há uma firme opção pelo “fácil”. O primeiro com indicação dos mestres, doutores e com ampla aprovação do mercado editorial; o segundo, com a chancela do Estado. Essa é a saída para aprimorar a leitura e privilegiar o conhecimento?

Se a educação tem um efetivo potencial emancipatório, possibilitando liberdade intelectual aos indivíduos que buscam o conhecimento, ao não ser ofertado o saber de uma dada matéria com a devida profundidade, há uma sonegação explícita da liberdade. Possibilitar o conhecimento a todos de forma “descomplicada” é reproduzir a miséria intelectual que vivemos. Isso só nos conduzirá a um claro aprisionamento intelectual travestido de sabedoria. Como no título, um abismo atrai outro abismo. Um pouco de sarcasmo: aos que não entenderam a coluna, não irei simplificar. Tenho o péssimo (ironia, ok?) hábito de evitar os abismos.

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