ANO: 23 | Nº: 5812

Fernando Risch

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Escritor
06/10/2017 Fernando Risch (Opinião)

Ao se candidatar, Lula presta um desserviço ao Brasil

Francis Scott Fitzgerald dizia que o significado de inteligência era poder conceber duas ideias completamente contraditórias ao mesmo tempo e, ainda assim, ser capaz de aceitar as duas. George Orwell, em 1984, um dos seus principais livros, cunhou o termo duplipensar, que tinha o mesmo significado, mas de uma maneira mais pejorativa.

Hoje, no Brasil, nesta aberração de discursos extremados e dicotômicos, o que parece faltar é inteligência para uma mediação de conteúdo. Ser capaz de admitir certas coisas que não se gosta ao mesmo tempo em que se utilize daqueles argumentos os quais se acredita. Se todos utilizassem um pouco deste duplipensamento, o diálogo entre as partes conflitantes seria mais moderado e inteligente.

Quer você queira ou não (e digo isso porque, provavelmente, alguém já deve estar babando de raiva com esse texto, pronto pra me atacar – se é que já não atacou mesmo sem ler), Luiz Inácio Lula da Silva é uma figura controversa sobre ele mesmo. Tão controversa que é capaz de ser amado por milhões e ser odiado por outros milhões. Simplificando: Lula ajudou muita gente, como nenhum outro governante teve coragem de ajudar, ao mesmo tempo em que se envolveu em escândalos, vendeu a alma ao PMDB, brincou de deus e planejou um projeto de poder para si e para o PT. São duas ideias distintas de se pensar sobre a mesma pessoa. E ele é isso, essas duas ideias distintas ao mesmo tempo, quer você queira ou não.

Assim, por mais que Lula desperte a paixão de 34% dos eleitores, que intentam seu voto a ele, Lula desperta o desgosto, a ira, o descontentamento de 42% dos eleitores, que não votariam no ex-presidente sob nenhuma hipótese. Assim, num cenário de vitória, Lula prestaria seu primeiro desserviço: não teria paz para governar, como Dilma não teve, vinda de uma eleição apertadíssima, com quase 50% da população negando-a; como Temer não tem, vindo de um golpe parlamentar em conluio com um Congresso podre. E Lula traz um agravante: a possível insurreição de conflitos das bases militantes, em quatro anos de turbulência, de possíveis pedidos de impeachment, de investigações incessantes, de condenações e pedidos de prisão e de desconfiança (até mesmo daqueles que lhe deram voto).

Numa segunda hipótese, Lula divide a esquerda e cria um segundo turno polarizado com uma extrema-direita, na face de Jair Bolsonaro, que representa a insatisfação personificada de milhões de pessoas. Jair é a não-política, o homem dito honesto, que vai “colocar o Brasil no eixo”, mesmo sem saber como fará. Sem experiência no executivo, o candidato não consegue traçar um plano de Brasil, sendo evasivo sobre assuntos básicos, como sobre a economia, por exemplo. Além disso, conta com uma rejeição tão grande quanto de Lula, com 33%, muito por seus posicionamentos preconceituosos e extremados. Assim, com uma hipotética derrota de Lula para o candidato do Patriotas (ainda não confirmado), o eleito também não teria governabilidade e as turbulências de um Brasil já turbulento não cessariam.

Num outro cenário, alguns nomes mais moderados, como Ciro Gomes, que alinha pensamentos da esquerda e da direita e que tem know-how de executivo, sequer figuram com a presença de Lula. Além de Marina Silva que, sem Lula, lidera as pesquisas, mas que desmorona em uma apatia pública, numa indecisão sobre assuntos sociais e num ambientalismo superficial. No caso do PSDB, Geraldo Alckmin, nas intenções de voto, está um passo à frente de João Dória (que provavelmente teria uma gestão fisiológica, como tem sido como prefeito de São Paulo), com 9% das intenções, contra 7%, respectivamente; já estes, têm suas candidaturas emperradas pela presença de Bolsonaro (que cresce ao mesmo tempo em que Lula cresce).

Sob todas as hipóteses, a presença de Lula, o nome de maior peso e que lidera as pesquisas para 2018, será um desserviço ao Brasil e para si mesmo. Seja com um mandato de turbulência e guerra política – como nunca se viu no país -, seja com o fortalecimento da extrema-direita, pela simples insatisfação e desgosto político da população – também acarretando na insurreição de conflitos ideológicos –, até na coibição de nomes mais moderados. Lula deveria repensar seu plano de Brasil (e de poder); o que ele fez de bom ao país, no cenário atual, jamais conseguirá repetir. E a população deveria refletir bem, num processo de duplipensamento, pesando os prós e contras de seus candidatos e oponentes políticos, sempre aceitando ambos, os prós e contras, não apenas aquilo que lhes convém.

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