ANO: 23 | Nº: 5812

José Carlos Teixeira Giorgis

jgiorgis@terra.com.br
Desembargador aposentado e escritor
07/10/2017 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

O anarquismo e o futebol

Muitos se admiram quando divulgo que Bagé foi importante centro anarquista no País; aqui houve uma imprensa anarquista conhecida até lá fora. E com nomes expressivos no movimento, como o espanhol João Más Py, Cecílio dos Santos, Reduzindo Colmeneiro, Dorval Lamotte, João Garrido e principalmente Venâncio Pastorini Sobrinho. Ou mulheres, como a uruguaia Maria Silvia Lorenzo, jornalista de “A noite” e do “Correio do Sul; e Elvira Boni, que viera do Rio onde fundara a União das Costureiras e aqui, dona de drogaria, se envolveu em questões sindicais.
Segundo George Woodcock, o anarquismo é um sistema de filosofia social que visa promover mudanças básicas na estrutura da sociedade e principalmente a substituição do Estado por uma forma de cooperação não governamental entre indivíduos livres.
Nele se destacam três importantes vertentes que influíram no desenvolvimento político do Brasil: o anarco-individualismo segundo o que toda pessoa é capaz de se tornar anarquista movida por uma consciência individual, independente de sua classe social; o anarco- coletivismo acha que oprimidos e explorados são agentes da revolução, excluídas as elites. A experiência da Colônia Cecília, no Paraná, foi umas das iniciativas; e o anarco-sindicalismo, corrente mais conhecida, coloca-se numa posição classista, afirmando que os operários estão destinados a fazer a revolução social e conduzir as massas rumo ao fim da exploração do homem. Foi o setor mais ativo em ações culturais e esportivas.
Na última corrente, mora curiosidade histórica, pois uma das negações, e depois tentativa de apropriação ocorreu com o nascente “foot-ball”, inicialmente considerado “esporte praticado pelos ricos”, mas que logo entrou nas fábricas, tornando-se uma “febre” entre todas as idades e classes, daí alvo de oposição anarquista nas primeiras décadas do século 20.
Um dos periódicos anarquistas de grande circulação no Rio de Janeiro e São Paulo chamado “A plebe” logo se converteu em instrumento de censura, aludindo que “três são os meios infalíveis que os ricos exploradores dos miseráveis e necessidades do povo empregam para tornar a classe operária uma massa bruta: o esporte, o padre e a política”, pois “não existe nenhuma vila ou aglomeração de casas de operários que não de futebol, os operários de ambos os sexos tornam-se aficionados e torcedores e brutalizam-se a ponto de só viverem discutindo entre os companheiros os lances e proezas dos campeões”.
Lamentando profundamente o estado em que se achava a juventude, dizia-se que ela estava corrompida por dois divertimentos prejudiciais: a dança e o futebol; que a primeira “bate recorde de imoralidade e atinge apogeu da loucura e do crime (...) as sociedades dançantes e os clubes de futebol pululam nos bairros suburbanos, onde é grande a população operária (...); o futebol atrai igualmente milhares de rapazes que exercitam o funesto jogo de um selvagismo atroz (...); o futebol é uma diversão violenta, além de produzir o mal físico, produz também o mal moral. Mais úteis à humanidade e a si próprios seriam esses rapazes se em lugar de se ocuparem em semelhantes passatempos ingressassem antes no sindicato e nas ligas operárias a fim de poderem enfrentar o vilíssimo patronato(...); e quando um grupo de 10 ou 12 pede licença para fazer um jogo, ospatrões gostam que os operários gastem suas energias nessas coisas e por isso o pedido é logo satisfeito. Demais o jogo deveria ser entre o coreto e a casa do senhor coronel decerto para divertir os amáveis burgueses. O escravo também é palhaço”.

Mais tarde amainam as críticas e o movimento passa a lidar de outra maneira, apropriando-se das atividades esportivas para sua ação política incluindo tais práticas em suas iniciativas de lazer e propaganda, fazendo a diferença entre o “esporte pelo esporte” e o esporte útil à solidariedade operária.


Fonte: Michelle Nascimento Cabral, “Futebol, teatro e anarquia no Rio de Janeiro”, em História do Anarquismo no Brasil, v. 2, Rio de Janeiro: Achamé, 2009, pp.210/212. ,

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