ANO: 23 | Nº: 5812

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
12/10/2017 João L. Roschildt (Opinião)

Bullying conceitual

Sofro de alguma perturbação mental quando escuto ou leio qualquer afirmação vazia de significado. O mesmo ocorre quando conceitos ou definições são distorcidos para atenderem aos interesses ideológicos. Ou, ainda, quando alguns indivíduos julgam conhecer algo que desconhecem. O grau da perturbação varia de acordo com a certeza da ignorância. Mas o incômodo não passa do silêncio e da indiferença; afinal, vive-se uma época relativista em que o conceito de verdade foi paulatinamente afastado do cotidiano. É o que me resta: saber compreender a época e tentar apresentar alguns contrapontos quando possível. Talvez, face à ideia de que todos têm direito a tudo, possa pleitear alguma indenização ao Estado por anos de opressão intelectual. O que me impediria?

Reparem que algumas palavras invadiram o imaginário popular como algo ruim e, atreladas a elas, surgem outras que buscam dotar de uma qualificação mais intensa o que se deseja afirmar. Por exemplo, ao dizer que alguém é conservador, logo agrega-se a palavra reacionário, que, por sua vez, tende a rememorar épocas ditatoriais. Todas as vezes em que escutei tais usos, sempre foram proferidos por pessoas que nunca leram nada sobre o conservadorismo político, sequer conseguiriam conceituar reacionário e possuem grandes dificuldades cognitivas para distinguir ditadura, totalitarismo e democracia. Como diz Marx, “de cada qual, segundo sua capacidade; a cada qual, segundo suas necessidades”. Portanto, utilizando um pouco do próprio veneno, a cada um de acordo com a sua racionalidade.

Outro termo que sofre com “bullying” é neoliberalismo. Solicitem que alguém o conceitue. Peçam definições claras. Perguntem quem são os teóricos neoliberais e quais suas principais propostas práticas. Onze a cada dez pessoas (números nem um pouco fora da realidade) não o conceituarão, não o definirão e não saberão quem são os teóricos. Mas, ao mesmo tempo, terão certeza de que é algo ruim e que visa à exploração da América Latina e à miséria dos miseráveis. Desse ponto em diante, fica extremamente complexa a argumentação e o diálogo. Qualquer um que defender o neoliberalismo será imediatamente classificado como um sujeito perverso, elitista e explorador. A depender do patamar de insanidade, será chamado de conservador e reacionário. E, talvez, saudosista da ditadura. Eis que o ciclo de falência conceitual se completa: há a perpetuação de ideias equivocadas no imaginário popular, impedindo a formação de uma cultura que possibilite romper com as ideologias coletivistas, que tantos danos produziram na política e na economia do país.

Alguns praticam tais “bullyings conceituais” com enorme articulação. Realizam tudo “de caso pensado”, em nome de ideologias coletivistas específicas. São os condutores da ignorância. Outros são fiéis asseclas de tais práticas, executando o bullying de maneira cega, afinal a promessa é do paraíso na Terra assim que os inimigos forem vencidos. Ambos estão afastados de qualquer argumento racional. Sem um uso adequado da linguagem e de seus conceitos, não há possibilidade de desenvolvimento intelectual, um pressuposto para uma sociedade sadia. Como diz Thomas Sowell, “é preciso um conhecimento considerável apenas para perceber a extensão da sua própria ignorância”. Conhecimento? Que palavra mais old-fashioned!

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