ANO: 25 | Nº: 6402

José Carlos Teixeira Giorgis

jgiorgis@terra.com.br
Desembargador aposentado e escritor
14/10/2017 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

O centenário da revolução russa e Bagé

Em 10 de outubro passado celebrou-se o Centenário da Revolução Russa, que muitos historiadores consideram tão importante como a Revolução Francesa ou a Independência Americana, seja pelo desenvolvimento que deu ao país ou, ainda, pela disseminação do socialismo que há bem pouco perderia algumas de suas bandeiras, principalmente pela divisão da URSS e a queda do Muro de Berlim.
Em março de 1917, a Rússia estava sacudida por movimentos libertários comandados pelos “sovietes”, ou assembleias de soldados, camponeses e operários. Isso determina a abdicação do czar Nicolau II. No dia 7 de abril Vladimir Lenin publica suas teses exigindo “todo o poder aos sovietes” e muitos distúrbios eclodem em Petrogrado. O governo ordena a prisão de Lenin que voltara da clandestinidade, e, em 10 de outubro os bolcheviques de Lenin decidem pela luta armada, data que é comemorada como a erupção do processo revolucionário. No dia 26 de outubro o Kremlin e o Palácio de Inverno são tomados e os sovietes assumem o poder com Alexander Kerenski, líder do Partido dos Socialistas Revolucionários. Em novembro há eleições gerais para a Assembleia Constituinte, que se inaugura em janeiro de 1918, ali disputando três facções: os bolcheviques, liderados por Lenin, que defendiam uma revolução socialista, o poder dos sovietes e a distribuição de terra e o fim da Primeira Guerra; os mencheviques, de feição moderada, que pugnavam por uma aliança com a burguesia até que o país estivesse pronto para o socialismo; e os kadetes, adeptos de monarquia constitucional. Em 6 de janeiro a Assembleia e dissolvida e os bolcheviques assumem o poder, derrubando Kerenski e aprovando-se a Constituição da República Socialista Federativa Soviética da Rússia em 15 de janeiro de 1918. Em 3 de março acaba a Primeira Guerra Mundial com a assinatura do Tratado de Brest- Litovski, e o exército retorna. Lenin falece em 1924, sete anos depois da revolução que liderou.
Quando aconteceu a Revolução Socialista de outubro de 1917, o Brasil se preparava para entrar no conflito mundial em vista do afundamento do navio “Macau” pelos submarinos alemães, fato que incendiou protesto nacional. As duas gazetas repercutiam os episódios dos combates, quando Lênin embarcava na Estação Finlândia rumo a Petrogrado (hoje São Petersburgo) para a construção de novo sistema e outra realidade econômica.
Os historiadores valorizam os documentos como fontes primárias, mas têm nos jornais um dos mais importantes instrumentos de análise para fotografia de época e seus costumes; as personalidades que a dignificaram; os acontecimentos que mudaram seus instantes; enfim, a memória de outrora.
Atualmente, não é fácil prover um periódico, embora as facilidades da técnica e virtudes cibernéticas imagine-se, então, a coragem dos empreendedores do século passado, em geral abnegados ou partidos políticos, que o dirigia de forma amadora, a impressão precária; os tipos que exigiam composição manual, a dificuldade em obter assinaturas e até o papel. Mas muitos pesquisadores, através dos jornais, escreveram páginas significativas, como o historiador pelotense Adriano Belmudes Antunes que, em texto expressivo, examinando e comparando as noticias de alguns jornais do interior, entre o quais o Correio do Sul, contou como a Revolução Socialista repercutiu em nossa cidade.
Os jornais haviam introduzido o telégrafo, que era o meio mais moderno de comunicação, o que trouxe rapidez na transmissão, selecionando as postagens das grandes agências internacionais; também surgia a publicidade, como novidade para ingresso de recursos, somando-se às subvenções particulares ou públicas que os alimentavam.
O Correio do Sul centrava eixo mais nas negociações de paz e nas lutas entre os contrarrevolucionários e bolcheviques, almejando a derrota dos marxistas e um governo para Kerensky.
Assim contava que: “centenas de desertores bandidos morreram de fome sendo seus cadáveres encontrados em abandono nas estradas. Não há menor respeito à propriedade e à vida de pessoa alguma. Os colegas de Lênin declararam que não podem permanecer no poder, em virtude de não serem obedecidas suas ordens. Quanto às propostas de paz firmadas por Trotsky são consideradas como simples truque do governo maximalista para criar popularidade e autoridade, que de outro modo lhe seria impossível obter. Porém, o sentimento nacionalista do povo russo repele qualquer paz que seja feita com humilhação e prejuízo na Rússia. Os partidários do Czarismo, que contam com grandes e poderosos elementos, vêm desenvolvendo grande propaganda em favor da restauração da monarquia especialmente entre os exércitos da frente e camponeses (C.S. 30.11.1917, p. 03)”.
Nas edições de dezembro são muitos os telegramas publicados sobre as eleições parciais para a Assembleia Constituinte, com liderança dos bolcheviques, seguidos dos democratas-constitucionalistas (kadetes) e por último os socialistas revolucionários; e sobre os acordos de paz, que não tiveram sucesso, sendo dissolvidoo Parlamento, posto na ilegalidade o partido dos kadetes; e registrando o domínio dos bolcheviques.
O Correio do Sul foi exemplar testemunha desta memória e de fatos relevantes da história bajeense e mundial. Louve-se sua lembrança com a estrofe suprimida do hino farrapo: “que entre nós reviva Atenas, para assombro dos tiranos; sejamos gregos na glória; e na virtude, romanos”.


Fontes: 1. “A Repercussão da Revolução Russa de 1917 nos Jornais Diários da República Velha no Rio Grande do Sul” por Adriano Belmudes Antunes. História em Revista, Universidade Federal de Pelotas, 2000; 2. “Veja”, edição 2551, ano 5º, nº 41, de 11 de outubro de 2017.

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