ANO: 25 | Nº: 6331

Fernando Risch

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Escritor
14/10/2017 Fernando Risch (Opinião)

O paradoxo da transparência

Uma ideia que se enraizou na mente do brasileiro é a de que todo político é corrupto. Todo e qualquer pessoa que ocupe um cargo público vindo de uma eleição é ladrão. É uma regra que permeia o imaginário popular. Em 1981, Ary do Cavaco compôs “Reunião do Bacana”, cuja estrofe “Se gritar pega ladrão, não fica um, meu irmão”. Desde então, isso tornou-se uma espécie de máxima no simplorismo do senso comum do brasileiro.

E apesar desta ideia permear as fontes de cada cidadão, esses mesmos cidadãos não pareciam muito incomodados com a ideia, não se erguendo contra a hipotética corrupção. E esse era o problema, por ser hipotética, ficava lá no imaginário. Então era mais fácil falar a frase de Ary do Cavaco, aceitar que os políticos não tinham solução e voltar ao seus afazeres e lazeres da vida, ignorando o fato de que, talvez, realmente, houvesse muita coisa errada nos parlamentos e nos governos.

Em 2009, foi sancionada a Lei Capibaribe, que criou o Portal da Transparência, obrigando a União, os estados e os municípios a divulgar seus gastos na internet em tempo real. O Portal em si não é a ferramenta mais prática e usual do mundo, mas era um passo para expor as entranhas do país. Mas ainda faltava mais, faltava o fim da impunidade. Ao mesmo tempo em que os políticos se embretavam nos limites financeiros e nas leis fiscais, aqueles que não andassem na linha, que desviassem verba, deveriam pagar na Justiça.

E a impunidade sempre foi apontada como o grande problema do Brasil, mais que a própria corrupção. Na verdade, a corrupção só seria combatida no momento em que os políticos que a praticassem fossem presos. Então isso aconteceu: os políticos, como nunca antes na República Federativa do Brasil, começaram a ser presos (o senador Delcídio do Amaral foi o primeiro político preso no exercício do mandato na história do país) – e os que não foram, começaram a ser pressionados contra a parede, tentando salvar-se a qualquer custo da prisão – e ainda seguem.

É nesse ponto em que o paradoxo da transparência existe. Para que uma democracia se consolide, transparência é essencial para que a própria população saiba o que acontece no país e que as instituições funcionem adequadamente, punindo os contraventores. Mas, no momento em que as entranhas do Brasil começaram a ser expostas, que os números e cifras começaram a sair do imaginário e entrar no real, quando se gritou “pega ladrão” e começou a não ficar um, meu irmão, e os políticos responsáveis por desvios e crimes começaram a ser julgados e presos, a população perdeu a crença na própria democracia e na Justiça, dando voz e poder ao autoritarismo.

Numa pesquisa recente, feita pela FGV, as instituições que os brasileiros mais confiam são a Igreja e o Exército. Não coincidentemente, as duas instituições menos transparentes da sociedade. Assim como há a crença, vindo de alguns setores da sociedade, que não existia corrupção na Ditadura Militar. Sem transparência no regime autoritário, como saber se se roubava ou não? Sem o conhecimento dos fatos, crê-se que eles não existiam. E existiram, e muito, mas é melhor fingir que não sabemos, porque não havia transparência, criando uma falsa confiança no sistema.

Com um sentimento de desesperança, ao tirar os ladrões da ficção do imaginário e trazê-los pro real, a população virou-se contra o próprio sistema, que antes não funcionava. E quando funciona, julgando desvios e prendendo os culpados, é como se tudo aquilo fosse novidade, como se não devêssemos prender políticos corruptos, apenas fazer vista grossa para suas tramoias e seguir a vida, fingindo que está tudo bem.

Políticos corruptos serem expostos e presos é algo positivo, mas é visto aos olhos populares como algo negativo, como se o sistema tivesse falhado e não há como manter mais uma democracia; mas é o contrário. Quanto mais se prende os corruptos - o que nunca aconteceu antes -, mais o sistema funciona e está se curando dos maus políticos, principalmente figuras históricas, envolvidas em escândalos acobertados há décadas. Geddel Vieira Lima, por exemplo, preso pela Operação Lava Jato e dono de um apartamento na Bahia com R$ 51 milhões em espécie, é um dos Anões do Orçamento, de 1993.

Talvez seja preguiça de ter esperança e acreditar que as renovações de políticos trarão um futuro mais promissor, menos sujo; ou talvez seja do DNA brasileiro simplesmente fingir não saber das coisas e varrer os problemas pra baixo do tapete - ou talvez sejam ambas as situações. A verdade é que não há razão pra descrença, desde que a democracia seja sólida e inviolável, as instituições funcionem, a transparência seja ampliada e o voto, essa obrigação que nos faz sair de casa de dois em dois anos, seja feito de forma consciente, com os candidatos escolhidos mantendo a democracia cada vez mais forte e o Brasil cada vez menos desigual, livre do autoritarismo e de falsos super-heróis.

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