ANO: 25 | Nº: 6334

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
19/10/2017 João L. Roschildt (Opinião)

Quem são as vítimas?

Atividades laborais são bons catalisadores de análises sociais. Para além de dignificar o indivíduo em seu âmbito moral, um bom e adequado desempenho de uma profissão pode auxiliar na compreensão da cultura de uma época. É como se, nas pequenas relações interpessoais oriundas de interesses específicos e microscópicos que envolvem um trabalho, houvesse uma espécie de abertura racional para a compreensão do amplo sistema (ir)racional que envolve a sociedade. Profissões como a de professor universitário, por exemplo, que lidam com um público “adulto”, “maduro”, vasto e variado, talvez seja uma daquelas que ofertam mais possibilidades de auscultar os recônditos da fluida arquitetura social.

Mas lecionar na era do politicamente correto fez com que um dos pilares do processo ensino-aprendizagem fosse abandonado: a razão. Sem a racionalidade, toda a explicação de conteúdos fica sujeita a linhagens político-ideológicas que servem a interesses particulares ou de grupos que querem negar as possibilidades que a natureza humana nos legou. A tarefa ficou hercúlea, mas as lições racionais extraídas desse caos são homéricas. Um caso real?

Certa professora universitária, em um curso de Direito desse grandioso Brasil, ousou afirmar em sala de aula que existem casos em que a vítima contribuiu para o mal sofrido. Ou seja, a vítima seria parcialmente culpada pelo que sofreu. Rapidamente, a nata do alunado colocou seus dedos nos canhões nesciais (smartphones) e atirou em direção a aplicativos de compartilhamento de mensagens e redes bestiais. A crítica? O absurdo e a bestialidade da afirmação da docente. Não foram tecidos argumentos racionais que contestassem a afirmação ou mesmo teorias que divergissem de forma sadia sobre o que foi dito. Muito menos um debate franco de ideias; afinal, os indivíduos só são poderosos atrás de suas telas e dentro de seus grupelhos. O que se viu foi uma enxurrada de palavras de efeito como se “per se” tivessem o poder de destruir uma cadeia de argumentos. Mas é a “lacronet”: com certeza, seus convivas acham que alguém “lacrou” na internet por falar mal de outrem.

Todavia, o problema é que esses universitários do Show do Milhão (do Sílvio Santos), que não conseguem ler mais do que três páginas sem ter uma síncope, sofrem de um grau ridículo e bizarro de “ignoratio elenchi”: concluem coisas sem sentido e sem fundamento algum. Tentando comprovar que a professora estava errada, comprovam a própria ignorância.

Algo corrigível, se iluminado pela razão. Por exemplo, Theodore Dalrymple, famoso psiquiatra britânico, que lidou por anos com mulheres vítimas de violência doméstica, detectou que muitas vezes ocorre uma falha deliberada em “perceber antecipadamente a violência do homem que escolhem”, o que as permite se isentarem de qualquer responsabilidade dos danos que sofrem, julgando-se meras vítimas, quando, na verdade, seriam vítimas e cúmplices. Dalrymple acrescenta, dizendo que as mulheres atendidas julgam (na proporção de nove entre dez) que ele reconheceria homens agressores em razão das características que elas mesmas descrevem: “Portanto, a cegueira é intencional”, conclui.

Negar fatos em prol do politicamente correto, vilipendiar o conhecimento e debelar a razão (e os que a utilizam). Quem são as vítimas de tudo isso? E os cúmplices?

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