ANO: 25 | Nº: 6331

Fernando Risch

fegrisch@gmail.com
Escritor
20/10/2017 Fernando Risch (Opinião)

Por que não há choque com o terrorismo na Somália?

Na última terça-feira, o jogador de basquete Gordon Hayward, do Celtics, fraturou o tornozelo em um lance normal, na partida contra os Cavaliers. A cena bizarra, do pé esquerdo do jogador pendendo solto em um ângulo completamente oposto à anatomia humana, logo viralizou nas redes sociais, em mensagens de internautas transtornados, beirando o desespero. De fato, a cena é grotesca e causa asco a quem assiste.

Vendo aquela repercussão exagerada, com frases de apoio e hashtags desejando força ao atleta, me veio à mente o que não se passou no domingo nas redes sociais, no maior atentado terrorista desde a queda do World Trade Center, em setembro de 2001. No dia 15 de outubro de 2017, mais de 300 pessoas morreram brutalmente na Somália.

É um tanto óbvio e de conhecimento geral que algumas vidas valem mais que outras. Todo aquele que estiver periférico de qualquer centro urbano sempre terá, mesmo que não dito publicamente, sua vida menos valorizada do que aqueles que se sentam no luxo, na nobreza de bairros pacíficos. Mas este não é o caso, apesar de parecer.

Por que então o mundo reza por Paris e por Las Vegas, pessoas erguem bandeiras pela morte de um número menor de pessoas, mas quando o terror vem de um lugar periférico do mundo, em um número muito mais expressivo de vítimas, a mesma catarse não acontece? No subconsciente que nos dá noções de mundo, nós dividimos o planeta entre a civilização ideal e perfeita e a civilização selvagem e subdesenvolvida.

Quando um atentado ocorre em Paris, por exemplo, numa cidade símbolo do mundo ocidental, a qual elencamos nas nossas mentes como uma referência em qualidade de vida, turismo, progresso etc, há uma ruptura do nosso mundo ideal, deste mundo civilizado ocidental. Aquilo que imaginávamos como um centro incorruptível e seguro do planeta, nós enxergamos banhado em sangue, insegurança e terror. É como se nossas peles estivessem expostas a qualquer barbárie possível. Nosso subconsciente nos avisa que se aconteceu lá, naquele mundinho perfeito, o nosso mundo também está vulnerável e nos apiedamos daquela nova realidade.

Se um atentado ocorre na Moldávia, por exemplo, ainda que seja um país europeu, mas da parte oriental, a repercussão não ocorreria da mesma forma, visto que o país, em se tratando de uma republiqueta ex-URSS, sem expressão mundial e sem fazer parte de uma ideia subconsciente de mundo perfeito, cairia na imagem de subdesenvolvido e selvagem. A frase “Eles vivem em guerra” cruza nossas mentes e nós tomamos a questão como algo corriqueiro, normal.

O mesmo ocorre nos conflitos entre Israel e Palestina. Basta que o cessar-fogo seja rompido, que um dos lados ataque e vítimas sejam feitas, que no senso comum de nossas mentes surge a frase “Mas eles estão sempre se matando” e o fato passa batido para aqueles pouco interessados neste conflito histórico e brutal. Um atentado no Mundo Árabe, para um cidadão ocidental, soa como uma terça-feira de chuva.

É exatamente isso que acontece na Somália. Em se tratando de um país africano e pobre, a ideia de selvageria e subdesenvolvimento, a ligação com a miséria e corrupção, de guerras e sofrimento, passa a impressão de que aquilo é normal, plausível para um país como aquele. E, no embalo, a mídia repercute menos, expõe menos e se importa menos.

Não há um plantão na Rede Globo para um atentado terrorista nos Bálcãs, na África e na Ásia (com exceção de Japão, Coréia do Sul e Austrália), não importando o número de vítimas. Mas basta que dois ou três morram em uma explosão em Boston ou em Roma para que o mundo se choque, pare e peça preces para aqueles que morreram.

A verdade é que nós, seres humanos bárbaros, somos reféns de nosso próprio imaginário. Não nos importamos com as mortes, nos importamos com o terror invadindo um espaço em que ele não está acostumado a estar e com a ideia de não haver lugar no mundo seguro para protegermos nossas próprias vidas.

Deixe seu comentário abaixo

Outras edições

Carregando...