ANO: 24 | Nº: 6182

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
26/10/2017 João L. Roschildt (Opinião)

A educação que cristaliza a miséria

Há anos, o Brasil pratica uma estrutura educacional alinhavada com o pensamento de Paulo Freire, sempre reforçada pelas Faculdades de Educação esparramadas de Norte a Sul por este país. Por décadas assistimos essa árvore gerar péssimos frutos. Basta acompanhar o desempenho dos nossos estudantes em testes reconhecidos internacionalmente. Ou basta acompanhar, na prática, a ausência de conhecimentos técnicos por parte dos alunos sobre as mais diversas áreas: regras gramaticais elementares, matemática básica e datas históricas importantes. A estrutura argumentativa por trás desse padrão é sempre a mesma: a tradição compõe algo arcaico que deve ser superado, ao passo que o construtivismo, o neomarxismo de Frankfurt e Freire são vistos como o itinerário dos bem-aventurados.

No ano passado (12/07/2016), em reportagem no portal G1, foi divulgado que a professora Ane Sarinara, que leciona História na periferia de São Paulo, utiliza funk e rap para conectar a matéria que ensina com a realidade de seus alunos: “Os alunos gostam disso, é o que eles escutam e é a linguagem que eles sabem”, justifica a docente. Surreal. Se a linguagem que eles utilizam é a do rap e do funk, a escola deve utilizar tal linguagem? Isso significa que a escola deve fazer o que os alunos gostam? Em suma, a escola adquire novo papel: passa a ser um local sujeito às vontades dos alunos que não estão nem um pouco preocupados com um engrandecimento cultural. É o reforço da miséria intelectual: ao invés do sistema educacional ser um trampolim para que os indivíduos floresçam, acaba sendo um reforço dos padrões miseráveis que eles possuem, reproduzindo suas tristes realidades.

Ainda na reportagem, repleta de sentimentalismo tóxico, Ane Sarinara relata que desenvolveu uma atividade semelhante a um tribunal, em que a Polícia estava de um lado e o tráfico de outro: “Na periferia, a polícia é muito mal vista porque chega sempre com violência. Mas a ideia era mostrar para eles que o tráfico, que é quem acaba fazendo as melhorias que eles precisam na região em que o Estado é ausente, não tem só coisas positivas”. Questiona-se: por acaso o tráfico tem algo de positivo? Afinal, a afirmação “não tem só coisas positivas” da professora pressupõe que, em seu ilustre intelecto, haja algo de positivo nos traficantes.

Não vou me embrenhar na relação entre alta cultura e determinados estilos musicais. O simples ato de escutar uma música tem a capacidade de dizer se favorece (ou não) uma elevação intelectual. Mas cada um ouve aquilo que a sua “natureza” se inclina. Só não se esqueçam de que determinados padrões favorecem algumas práticas, e que cabe à Arte (em seu conceito clássico) elevar espiritualmente os indivíduos. Por espírito, entendam: o conjunto das capacidades intelectivas de um ser humano. E se algo degrada o espírito, não deve ser utilizado como ferramenta de ensino.

Finalizo com Leo Strauss, para o qual “a educação liberal significa libertação da vulgaridade. Os gregos tinham uma bela palavra para indicar a ‘vulgaridade’; eles a chamavam de ‘apeirokalia’, falta de experiência nas coisas belas. A educação liberal nos propicia experiência nas coisas belas”. Sem experimentar coisas belas, sem conhecer as grandes mentes e sem respeitar a tradição: eis o retrato de Dorian Gray da nossa educação.

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