ANO: 24 | Nº: 8084

Fernando Risch

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Escritor
27/10/2017 Fernando Risch (Opinião)

O sono eterno da vergonha

Chame-me do que quiser. Acuse-me de ser isso ou aquilo, eu não me importo. Lembro-me bem do dia em que o juiz Sérgio Moro liberou os áudios grampeados entre a então presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula. Foi um fim de tarde interessante, em que o Brasil silenciou para ouvir aquelas escutas e tentar interpretá-las.

Para quem achava que a nomeação de Lula como Ministro Chefe da Casa Civil era um golpe para livrar o ex-presidente da cadeia, aquilo não só serviu para impedir sua nomeação - que durara menos de 24 horas - mas servia também para dar base como prova em uma possível e hipotética prisão do ex-presidente. Era obviamente uma obstrução de justiça – ou algum outro tipo de motivo que encarceraria Lula -, além de servir como base para postar Dilma como sua cúmplice neste conluio, pedindo sua queda.

Nesse dia, lembro que fui ao mercado logo após os áudios serem vazados. Havia uma carreata na rua. Uma carreata. Não eram muitos, bem verdade. Mas havia uma carreata, na maioria composta por caminhonetas luxuosas. As buzinadas, as comemorações, a gritaria. Nunca havia visto um entusiasmo tão grande. Era maior que o meu, ao ver meu time vencer fora de casa na semifinal da Libertadores. Aquilo era diferente, era maior. Tinha certo rancor, ranço, sendo posto para fora.

Não vou desqualificar a seriedade daquelas escutas, só gostaria de saber por que essa indignação morreu. Ou virou vergonha. Ou nunca foi de fato uma indignação com aquela suposta obstrução de justiça – ou o que quer que seja. Michel Temer, nesta quarta-feira, livrou-se de mais uma denúncia no Congresso. Gastou, para isso, dos cofres públicos, cerca de trinta e dois bilhões de reais. Trinte e dois bilhões de reais. Caso você tenha tido um lapso e não tenha conseguido ler as últimas duas linhas, eu repito: trinta e dois bilhões de reais. Público, escancarado, estampado em jornais como se fosse a previsão do tempo.

E nós aqui, bobos, olhando para as paredes, chutando pedrinhas e criando desculpas esfarrapadas pra justificar o injustificável. Trinta e dois bilhões em emendas para livrar-lhe o pescoço. E querem te fazer engolir um Reforma da Previdência em que os 3% que recebem um quarto da Previdência não são atingidos. Querem te vender corte na educação para pagar juros de banco – quantas bolsas do CNPq esse dinheiro paga? E você, professor, com salário defasado. Querem te vender o Brasil, desde que você tenha dinheiro para pagar.

Eu nunca fui de sair na rua para pedir isso ou aquilo – lembro-me de sair nos movimentos de 2013, depois disso, não mais –, então é natural que eu não seja um revolucionário que movimente as massas para pedir uma mudança. Mas cadê aqueles carros? Aqueles carros frenéticos, tresloucados e histéricos que saíram às ruas pra comemorar sabe-se lá o quê. Onde estão?

Eu digo onde estão: em casa, indignados, mas quietos. Agora, os movimentos que encabeçavam as manifestações não têm mais interesse em derrubar ninguém, apenas de manter esse status quo – e o cidadão indignado não vai nem para um lado e nem para o outro, prefere se lamentar. A verdade é que no discurso de combate à corrupção, quem marchou ao lado dessa gente, marchou ao lado de pessoas financiadas para levar a quadrilha de Temer ao poder e mantê-la lá. Que outra explicação temos para o silêncio das lideranças “anticorrupção” ao verem essa depravação do PMDB nacional nos cofres públicos?

Eu gosto de propor um exercício. E veja bem – não, veja bem mesmo -, eu não estou fazendo a defesa de ninguém. Estou propondo um exercício. Imagine que a notícia seja “Custo para barrar denúncias contra Lula alcança R$ 32,1 bilhões”. Que frenesi descontrolado isso não geraria? Que gritos histéricos, caras pintadas e coreografias grudentas essa notícia não criaria? Pois está aí, na nossa cara, um presidente defecando nos cofres públicos pra salvar o próprio pescoço e só o que conseguimos fazer é dizer “nossa, que absurdo” e voltamos à nossa programação normal.

O voto em Dilma pôs o Temer na vice-presidência? Sim, aceito esse argumento. É verdadeiro, apesar de que, mesmo a prática sendo verdadeira, ninguém escolhe chapa, escolhe candidato. E, sim, há responsabilidade de quem votou em Dilma. Mas há outro responsável pelo retrocesso que o Brasil vive: aqueles que, a qualquer custo, quiseram derrubá-la, com passeatas, manifestações e buzinaços.

Todos têm culpa. Só o que não entendo é por que agora os mais sonoros e explosivos combatentes contra a corrupção se calaram e se escondem atrás da sombra de postes. Não é feio bater no peito e dizer em quem votou, o que se fez e deixou de fazer e assumir as consequências destes atos. O que se vê hoje, no Brasil ,é o sono eterno da vergonha. Vergonha por terem sido enganados por movimentos embustes e por ter apoiado um processo que nunca foi de combate a corrupção, mas da perpetuação dela.

Não é tarde para acordar.

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