ANO: 24 | Nº: 6110
30/10/2017 Cidade

Latinhas que valem ouro para a indústria

Foto: Tiago Rolim de Moura

Latinhas formam blocos compactados, que pesam, em média, 16 quilos
Latinhas formam blocos compactados, que pesam, em média, 16 quilos

A indústria está no centro de um processo capaz de gerar emprego e renda bem longe das fábricas. A reciclagem de latas de alumínio, atividade liderada pelo Brasil, mundialmente, ganha novos espaços nos centros urbanos, através de empresas e cooperativas. E os números do setor impressionam. Apenas em Bagé, o empreendimento administrado pelo empresário Jocemar da Silva Lorensi, 40 anos, recicla, em média, 10 toneladas do produto por mês.
Latas de alumínio, que são usadas, basicamente, como embalagens para bebidas, podem ser recicladas sem nenhuma perda de qualidade, e por isso são ideais para a denominada reciclagem de ciclo fechado. O potencial da Campanha gaúcha para esse mercado foi identificado por Lorensi há oito anos. Antes de se estabelecer na Vila dos Anjos, na zona leste da cidade, ele atuava em Santa Maria. O volume disponível em Aceguá, Candiota e Dom Pedrito, até então comprado apenas para revender a atravessadores, hoje ajuda a impulsionar sua própria empresa.
O trabalho envolve, pelo menos, três etapas antes da venda às fundições. A compra do material representa o primeiro passo. Como Bagé não tem coleta seletiva, o alumínio chega à reciclagem por meio de catadores, de consumidores que fazem a separação em suas residências e de sucateiros que atuam em outras cidades, onde Lorensi busca a matéria-prima. A limpeza das latas é uma fase crucial, porque está relacionada à qualidade do produto final. Ela é feita antes da prensagem feita por uma máquina específica, que prepara as latas, em blocos de 16 quilos, para o transporte até a região metropolitana. “Tudo acaba sendo vendido para a indústria”, comemora o empresário, que emprega quatro funcionários nesse processo.
O negócio é seguro, porque não existe sazonalidade na oferta de latinhas, embora o volume cresça no verão, conforme observa Lorensi. Os custos com a mão de obra, que precisa ser treinada, com o transporte e a energia elétrica, representam as únicas barreiras para a expansão. Nada que possa comprometer a principal característica do alumínio: o melhor preço (até R$ 3,80 por quilo) entre os materiais recicláveis. Esse aspecto, aliás, influencia no perfil dos catadores, cuja atividade profissional é reconhecida pelo Ministério do Trabalho e Emprego desde 2002, com base na Classificação Brasileira de Ocupações.
Muitos dos fornecedores de Lorensi não se dedicam integralmente à função de recolher as latinhas nos contêineres espalhados pela cidade. Mário Barbosa Jardim, 18 anos, é um deles. O trabalhador rural, que utiliza uma carroça para transportar o material, faz a separação no sítio onde mora com o avô, na periferia de Bagé. “Juntamos e vendemos papelão, PET e alumínio. As latas são o melhor negócio, sem dúvida. Elas valem muito mais. No meu caso, não seria possível sobreviver só com esta atividade, hoje, mas ela serve como um complemento de renda”, explica.


Setor gigante
Em 2016, de acordo com projeções da Associação Brasileira do Alumínio (Abal) e da Associação Brasileira dos Fabricantes de Latas de Alumínio (Abralatas), a coleta de latinhas para bebidas foi responsável por injetar R$ 947 milhões na economia nacional. O sucesso do setor se deve a fatores logísticos e econômicos.
O alumínio oferece uma vantagem insuperável. Enquanto o papel e o plástico resultam em reciclados de qualidade inferior, em relação ao produto primário, o alumínio mantém praticamente a mesma qualidade. A disponibilidade é outro fator decisivo para garantir o índice de reciclagem de 97,7%, alcançado pelo Brasil, no ano passado.
Não existem dados precisos sobre o percentual reciclado em Bagé. Lorensi acredita que metade das latas consumidas são reaproveitadas. O volume processado por ele oferece, de fato, uma boa ideia sobre as dimensões do mercado bajeense.
Uma latinha pesa 14,5 gramas. Para alcançar um quilo, portanto, um catador precisa reunir pelo menos 67 unidades. Dez toneladas representam 670 mil latas, volume que corresponde a uma média de cinco latas por habitante – bem abaixo da expectativa nacional de consumo, estimada em nove unidades.
O coordenador do Comitê de Mercado de Reciclagem da Abal, Mário Fernandez, informou, na sexta-feira, 27, durante evento que marcou a divulgação dos resultados de 2016, que este é um 'segmento cada vez mais representativo para a indústria, sociedade e meio ambiente'. Ele observou, ainda, que o consumo da lata de alumínio para bebidas chega a 110 unidades por brasileiro, anualmente, respondendo por praticamente 50% do volume de sucata recuperada.


Liderança global
Apenas no ano passado, de acordo com a Abralatas, o Brasil produziu mais de 25 bilhões de latas de alumínio para bebidas, ocupando o terceiro posto, no nível mundial, atrás dos Estados Unidos e da China. No terreno da reciclagem, porém, ninguém supera as indústrias brasileiras.
Relatório elaborado pela Resource Recycling Systems (RRS), consultoria internacional de sustentabilidade, a pedido das associações de fabricantes nos Estados Unidos (CMI), na Europa (BCME) e no Brasil (Abralatas), constatou uma taxa de reciclagem global de 69% das latinhas comercializadas, contra 43% do PET e 46% do vidro. O levantamento, que tem como base o ano de 2015, registrou, ainda, um índice de reciclagem de 98% no Brasil, 79% na Polônia, 77% no Japão, 72% na Itália e 55% nos Estados Unidos.
Para o presidente-executivo da Abralatas, Renault Castro, a estabilidade do índice nacional, na última década, representa bem mais do que 'o sucesso do modelo de reciclagem', apontando 'um importante diferencial competitivo da embalagem sobre suas concorrentes'. Em balanço oficial do setor, divulgado na sexta-feira, ele apresentou uma visão otimista, destacando que, diante da preocupação com o desenvolvimento de uma economia de baixo carbono, principalmente em um contexto pautado pela necessidade de desenvolvimento de alternativas para frear o aquecimento global, a reutilização se torna 'uma grande vantagem'.


Benefícios incontestáveis
O alumínio é extraído da bauxita (rocha formada principalmente por óxido de alumínio), a partir de um processo complexo, que inclui diferentes etapas de refinamento. Por ser um metal estável, sua produção demanda muito consumo de energia. A Abal estima que a atividade de reciclagem consome apenas 5% do volume utilizado para produção do metal primário. Neste cenário, só no ano passado, A reciclagem das 280 mil toneladas de latas proporcionou, ao Brasil, uma economia de 4,3 mil gigawatt-hora/ano (Gwh/ano). E essa não é a única vantagem ecológica.
Além do aspecto social, representado pela geração de renda, a reciclagem da lata de alumínio para obtenção de uma nova embalagem, de acordo com pesquisa elaborada pelo Centro de Tecnologia de Embalagem (Cetea), reduz em 70% as emissões de gás carbônico (CO²). O reaproveitamento também é fundamental para a conservação dos solos, tendo em vista que o metal pode levar até 500 anos para se decompor na natureza.


Ciclo inesgotável
Do momento do descarte até virar uma nova latinha, o ciclo da reciclagem do alumínio, integralmente ligado à indústria, é relativamente curto. A Abralatas estima que a cadeia infinita se fecha em um prazo de 60 dias. O processo, em Bagé, por exemplo, inicia na etapa pós-consumo, com a coleta das latas, que, após vendidas para cooperativas ou sucateiros, seguem para grandes indústrias, onde são fundidas a 700°C, se transformando em alumínio líquido. Esse produto, então, é revendido para empresas laminadoras, que fabricam chapas de alumínio e as vendem para companhias que produzem as latas. As embalagens seguem, por fim, para os fabricantes de bebidas, onde são envasadas e retornam às prateleiras dos supermercados.

Mais imagens

Deixe seu comentário abaixo

Mais notícias da edição

Outras edições

Carregando...