ANO: 25 | Nº: 6384

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
04/11/2017 Marcelo Teixeira (Opinião)

A casa

Certas coisas na vida parecem contrariar o andamento natural e inevitável de outras coisas. Por exemplo: antigamente as pessoas conquistavam sua independência mais cedo, mas a lei só considerava capaz quem tivesse 21 anos de idade. Agora, a lei considera capaz quem tem 18 anos, exatamente quando a independência raramente chega antes dos 21. Atrelado a esse fenômeno, adiamos cada vez mais a decisão de ter filhos, desperdiçando as nossas melhores condições físicas para tanto, ou seja, colocar filho no mundo sem ter uma carreira profissional definida é irresponsabilidade, colocar filho no mundo somente depois de uma definição na vida profissional é gravidez de alto risco.
Nessa mesma linha de inversões entre o ideal e o real destaca-se um caso clássico e experimentado por muitos. Quem casa quer casa e à medida que a família vai aumentando a necessidade de uma casa maior se faz imperiosa. Então, no começo da vida matrimonial é muito comum os casais concentrarem todos os seus esforços na conquista da casa própria com a forma e o tamanho de seus sonhos e necessidades. Os filhos nascem e as prioridades mudam, adiando ou atrasando o andamento da construção ou reforma da casa própria.
Não é raro demorarmos décadas na construção ou reforma até porque, para quem valoriza esta conquista, uma casa nunca está pronta. Sempre tem algo por fazer.
Décadas depois a casa termina ou, pelo menos, fica muito próxima daquilo que idealizamos. Aí a gente olha para os lados e..., e...; os filhos já foram, a saúde já não é mais a mesma para curtir todas aquelas benfeitorias e, de repente, até o casamento já terminou e tudo aquilo que foi projetado para aquela casa abrigar não existe mais. A casa é uma realidade, mas a realidade não exige mais aquela casa. Trata-se talvez de uma das mais desgraçadas ironias do destino.
Passamos a vida apertados, improvisando espaços e rotinas em casas alheias ou precárias, experimentando até momentos de desconforto, lastimando não poder oferecer espaços maiores e mais confortáveis para quem a gente ama e só quando transformamos nossos sonhos em realidade, percebemos que nossa realidade mudou. Moral da história: a riqueza material não proporciona os momentos mais felizes de nossas vidas, pois não tenho dúvida que, nesses casos, sentiremos mais saudades daqueles tempos em que vivíamos apertados e improvisados. É como aquele sentimento experimentado pelos mais velhos que choram de saudades daquele tempo em que faltava dinheiro e liberdade, mas não faltava vontade, saúde e esperança.
Assim, a casa própria é o troféu que representa uma importante vitória, fruto do esforço de uma vida inteira de sacrifícios e privações, mas pode ser também, uma catedral, um templo para nossas reflexões cujo vazio a deixa ainda maior do que é e onde a nostalgia ocupa todos os espaços construídos para a nossa alegria. É de chorar!

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