ANO: 25 | Nº: 6309

Fernando Risch

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Escritor
04/11/2017 Fernando Risch (Opinião)

Bagé não merece a si própria

Eu deveria estar feliz, radiante. Mas minha felicidade foi solapada pela ira. É como se um arco-íris se abrisse em cima de um campo de batalha em uma guerra. Corpos destroçados, ensanguentados, enlameados. Mortos sobre mortos; vivos que morrerão. E lá, acima deles, acima dos gritos desesperados de quem leva um tiro, um arco-íris se abre, tentando pintar um céu, ainda ileso pela guerra, com beleza.

Não!, eu grito. Não era o momento. Essa guerra não te merece, arco-íris. Então minha alegria por ver uma cena tão linda se esvai e eu fico irritado porque aquela cena linda foi atrapalhada pelo cenário o qual entrou. Talvez você não saiba, caro leitor, e escrevo isso com um ranger de dentes irados, mas nesta quarta-feira o bajeense Francisco Botelho venceu o Prêmio Jabuti de melhor tradução, com Romeu e Julieta, de William Shakespeare. Você talvez se pergunte o que é o Prêmio Jabuti e eu respondo, furioso, que é o maior prêmio literário do Brasil.

Quando os autos da história forem revistos, quando as futuras gerações tentarem configurar nossa realidade, eles se perguntarão: por quê? Tentarão entender por que Bagé ignora Chico; por que esse artista, a não ser no meio que o celebra, não tem o reconhecimento merecido por sua cidade. Francisco Botelho merece um outdoor na entrada de Bagé, posto pela prefeitura, parabenizando-o e alertando os viajantes que estão entrando em sua terra; terra que o valoriza.

Mas não, Chico Botelho não é valorizado. Onde ele estava na Feira do Livro de 2017? Não entro no mérito da patronagem para não desrespeitar meu amigo Eliéser Moura, mas Chico Botelho já deveria ter sido aclamado unanimemente – veja bem: aclamado unanimemente –, se não este ano, no anterior, ou no outro, ou no outro, ou no ano que avisa. Mas repito: onde estava ele na Feira do Livro? Ele sequer estava na programação. Mas a justiça não falha e, às vezes, não tarda, como não tardou, em meio à feira, a notícia de sua indicação ao Jabuti, coroada agora. E se, à época, não trouxe constrangimento pelo seu esquecimento, espero que traga agora.

Quando nos perguntamos hoje por que Graciliano Ramos, Erico Veríssimo, Monteiro Lobato, Lima Barreto, Cecília Meireles, Clarice Lispector, Vinícius de Moraes, entre outros, nunca foram escolhidos membros da Academia Brasileira de Letras, nos pomos a pensar e não encontramos explicação lógica para tal. Então vemos a presença de José Sarney, Fernando Henrique Cardoso, Merval Pereira e Marco Maciel e começamos a entender melhor.

São maravilhosos os discursos, vindos de vários setores, de progresso e inovação. Querem progredir e criar sem saber ao menos com quem estão lidando. No futuro, não adianta coçar a cabeça e se lamentar. Quando os revisionistas olharem para o passado, não saberão responder as perguntas que hoje nós também não sabemos responder. Na arte, Bagé pune quem produz. Produz de verdade. Chico merece Bagé, mas, infelizmente, Bagé não merece Chico. Bagé não merece a si própria.

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