ANO: 25 | Nº: 6210

José Carlos Teixeira Giorgis

jgiorgis@terra.com.br
Desembargador aposentado e escritor
04/11/2017 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

Entrevista

Não é que eu queira um nome de rua, mas uma manhã dessas, cinzentas e de chuvisco, deparei com um questionário, tipo entrevista pré-fabricada que pode ser feita a uma miss, ao Nikita, ao Pelé, e também a mim. Decerto, aqueles que estão colhendo dados para minha futura biografia quando eu famoso, terão nessas respostas um importante material. Portanto, vamos satisfazê-los.
- Qual a maior emoção da sua vida? Quando nasci: lembro-me que a natureza esplendorava em sóis e luzes. Para mim foi emoção demais, pois eu vinha do mundo das sombras. Quase tive um enfarto (naquele tempo não era moda), mas meus pais me acalmaram dando-me uma Coca-Cola bem gelada.
- Qual a maior preocupação do homem do século da máquina? Continua sendo a mesma dos tempos imemoriais: a barba.
-Cite as maiores invenções do século 20: a fome e Brasília: permitem-se conexões.
- Diga algumas passagens interessantes de sua gloriosa existência: aos oito meses,nascimento. aos quatro anos, coqueluche, crupe, varicela e caterva; aos 10, primeiro cigarro, tosses, último cigarro; aos 12, puberdade. Daí para frente minha vida pode ser resumida em etc., etc., etc.
- Já escreveu versos? No meu passivo constam alguns. Já disse alguém que versos são àquelas coisas que todos escrevem, mas que ninguém lê.
- Qual seu personagem histórico preferido? S. Tomé, que pagou para ver.
- Cite alguém que tenha contribuído para a felicidade humana: o francês Cambronne, que deu nova expressão ao vocabulário.
- É contra ou a favor da pena de morte? A grande dor da minha existência foi a de ter, numa tarde humilhante, ceifado a vida com certeira bodocada desse pássaro complexado que é o beija-flor. Daí para diante filosofei que só era justo matar quando o extinto nos sirva de repasto. E não me consta que carne humana seja gostosa.
- É apolítico? Ninguém o é. Mesmo o verdureiro, que ao pesar as batatas coloca o dedo na balança, faz política e das piores.
- É partidário? Existe isso? O que há são agremiações de publicidade e investimentos.
- Que acha dos satélites artificiais? Estão tão longe que nunca resolverão o problema da minha empregada.
- Quais as obras mais importantes que já leu? 1)“Queres ler”, de autor olvidado: foi o livro que mais demorei a ler...2)”A marca do Zorro”, de MacCulley, a única obra que li três vezes. 3) Otávio de Faria e Fernando Sabino. 4) Proust e Joyce (coloca esses aí por esnobismo).
- Qual o esporte mais emocionante? Caçadas.
- Seu time preferido? Sou masoquista, isto é, Guarany.
- Cinema predileto? Avenida Sete, numa tarde de inverno.
- Qual a maior frase que já ouviu em sua vida? A da parteira para minha mãe: “É homem”!
Amigos, é favor contextualizar, é um artigo para o Correio do Sul de julho de 1960: como observam o jovem praticava a ironia, que era o “mal do século”, andava lendo muito Pittigrili, mas no textohá verdades que persistem. Como diria o amigo Machado: mudou o Natal ou mudei eu?

Deixe seu comentário abaixo

Mais notícias da edição

Outras edições

Carregando...