ANO: 23 | Nº: 5793

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
09/11/2017 João L. Roschildt (Opinião)

Linda Ipojuca

O comportamento dos intelectuais é digno de nota. Sua capacidade de produzir ideias descoladas do real beira às raias da insanidade. Apresentam sempre causas nobres para buscar um estado de coisas ideal que nunca existiu. Revestem-se da aura de iluminados e vislumbram-se como guias para uma sociedade imersa nas trevas. Mas quem são os intelectuais?

Essas figuras, que vivem basicamente de ideias, ocupam diversas funções: juristas, professores universitários, jornalistas, escritores, políticos, etc. Sempre figurando na vanguarda, travestem-se de sujeitos do progresso, mesmo que as ideias possam ser decrépitas. Vivem em uma bolha. Transpiram vaidade. Acresce-se ainda que, de acordo com Paul Johnson, “nada atrai mais os intelectuais do que o sentimento de que eles representam ‘o povo’”. É nesse instante que o “poser”, muitas vezes frustrado com a ausência de reconhecimento social, mas ciente, de forma paranoica, que é a voz da verdade, se sente liberto das amarras opressoras e produz sua verborreia.

Luislinda Valois, ministra dos Direitos Humanos, redigiu um documento de 207 páginas para justificar um pedido de acumulação das remunerações de desembargadora aposentada (R$ 30.471,10) com o de ministra, perfazendo R$ 61,4 mil. Atualmente, como não é possível ultrapassar o teto constitucional (R$ 33,7 mil), isso significa que, como ministra, recebe cerca de R$ 3.292,00. Sobre esse último vencimento, Luislinda disse em seu pedido que “sem sombra de dúvidas, se assemelha a trabalho escravo”. Em entrevista à Rádio Gaúcha, demonstrando enorme senso público, questionou: “É justo? O Brasil está sendo justo comigo?”. Preocupada com sua sobrevivência, indagou: “E como é que eu vou comer, como é que eu vou beber, e como é que você vai calçar”?, acrescentando que quer ter uma vida um pouco mais digna (em outras palavras, receber R$ 33,7 mil é indigno). Para a Rádio CBN, disse que, em razão de sua representatividade, há a necessidade da acumulação para cuidar do cabelo, maquiagem, perfume, roupa, sapato e alimentação, afirmando peremptoriamente: “Se eu não me alimentar, eu vou adoecer e, aí, vou dar trabalho para o Estado”. Um quadro de Dalí é incapaz de atingir tal profundidade.

Por outro lado, o 34º Encontro Nacional dos Procuradores da República, realizado na paradisíaca Porto de Galinhas (será que o intelecto produz mais em locais turísticos?), teve como tema “O MPF na defesa da ordem econômica”. Nesse evento, foi gerada a Carta de Ipojuca. No curto documento, há uma contundente crítica quanto às perdas inflacionárias, o que tornaria a carreira pouco atrativa. Para eles, “a defasagem absoluta e relativa dos subsídios põe em risco a preservação do próprio status constitucional da instituição”. Tal súplica é oriunda de uma classe que recebe quase R$ 29 mil por mês, excluindo-se os possíveis benefícios de alimentação, transporte, moradia, creche e de ajuda de custo. Conforme reportagem da Gazeta do Povo, de 12/08/2017, com o total de benefícios pagos, é como se cada procurador recebesse em média R$ 52,4 mil em auxílios no primeiro semestre deste ano.

Dois exemplos descolados da realidade econômica do país e de quem julga agir em defesa dos interesses do povo. Duas retóricas em torno de direitos. Duas típicas expressões dos intelectuais. Um resultado: patrimonialismo.

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