ANO: 23 | Nº: 5793

Fernando Risch

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Escritor
10/11/2017 Fernando Risch (Opinião)

Somente a mulher tem o direito de legislar sobre seu próprio corpo

Nesta quarta-feira, a comissão especial da Câmara dos Deputados aprovou a proposta que inclui na Constituição a garantia do direito à vida "desde a concepção”. Essa proposta, se aprovada em todos os âmbitos e sancionada, proíbe que qualquer tipo de aborto seja praticado, até mesmo em casos de estupro.

O interessante fica no resultado final: 18 votos a favor, um contra. Dos 18 votos, 18 eram homens. O único voto contra foi de Erika Kokay, a única mulher na comissão. Ao final da votação, os pró-proposta berravam cânticos exaltados “a favor da vida”, enquanto Kokay escondia o rosto, constrangida.

Interessante também é a analogia direta e inevitável que se faz a esses mesmos parlamentares que se manifestam tão ululantes à vida humana. Uma mulher é obrigada sob qualquer hipótese a gestar um filho indesejado. A criança é criada em um ambiente degenerado, não preparado para recebê-la, seja por questões financeiras, psicológicas ou sociais. A criança cresce, se volta contra a sociedade e os mesmos que são pró-vida desde a concepção, querem o direito de matar para se defender. É um ciclo e só quem está protegido dele é a plutocracia, olhando de cima, no observatório blindado do privilégio.

Isso me lembra a história do deputado americano Tim Murphy, ocorrida neste ano. Murphy, um parlamentar pró-vida e contra o aborto, foi exposto pela própria amante, Shannon Edwards, a qual afirmou que apesar de o deputado ter aquela posição política, havia pedido para que Shannon fizesse um aborto de um filho seu. É uma hipocrisia padrão da sociedade. Ou seja, o que não me afeta, pelos privilégios sociais que eu tenho, não me interessa. Mulheres morrem a todo instante em clínicas de aborto clandestinas. A maioria delas de baixa renda. Mulheres ricas também abortam, também em clínicas clandestinas, mas com estruturas muito além da agulha de tricô e do cytotec.

O que me leva a pensar em como reagiriam esses homens pró-vida quando alguma mulher próxima de si sofresse um estupro. Sua mulher, sua irmã, sua mãe. O filho do estuprador seria gerido ou essas mulheres passariam por um aborto na clandestinidade, abaixo do tapete da hipocrisia? Homens também são estuprados, mas não engravidam. Mas o homem aborta. Aborta quando crianças são geradas de atos sexuais consensuais e o homem a abandona, foge e deixa a mulher sozinha a criar do filho.

Eu posso opinar e me posicionar sobre o assunto, ainda assim minha opinião, por mais que vá de encontro com a saúde e dignidade da mulher, é irrelevante. As únicas opiniões a serem levadas a cabo quando o assunto é aborto são daquelas mulheres que sofrem a desumanidade de um assédio e/ou tenham que recorrer à tragédia que é um processo abortivo, seja por questões financeiras ou sociais.

Dezoito homens. Dezoito homens que não sabem e jamais saberão o que é ser uma mulher no Brasil tomaram o primeiro passo, dentro de um fundamentalismo patético, para ferir a dignidade das mulheres. Mas somente elas, as mulheres, podem legislar sobre seu próprio corpo, quer você queira ou não, quer você goste ou não, quer você seja a favor do aborto ou não. Somente o próprio ser humano deve ter poder sobre si, não os outros.

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