ANO: 23 | Nº: 5789

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
11/11/2017 Marcelo Teixeira (Opinião)

Antecipações

Diz um provérbio, supostamente chinês, que “Antes da hora ainda não é hora. Depois da hora, já não é mais hora. Quando for a hora, aí sim é a hora.” Trata-se de algo tão bobo que parece não merecer maior atenção e reflexão, porém, às vezes, é tão difícil descrever racionalmente uma circunstância, que uma afirmação simplória como esta é capaz de expressar mais do que muita reflexão bem elaborada. Uma frase que tem essa mesma característica é aquela que diz que “uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa”. Igualmente boba, óbvia ululante, mas que, dependendo da circunstância, fala mais que mil palavras de um discurso profundo e pernóstico.
Pois bem, voltando à frase inicial, lembrei dela ao ver a monstra antecedência com que o comércio e os meios de comunicação lançaram a campanha de Natal neste ano. Coca-cola já com embalagens natalinas, RBS montou uma árvore de natal no estúdio, campanhas publicitárias já começaram a ensaiar músicas e temas natalinos com quase dois meses de antecedência, no fim de outubro, início de novembro.
Isso chamou muito a minha atenção porque, confesso, as campanhas publicitárias natalinas são bastante importantes para despertar o meu espírito de Natal, mas isso, em anos idos, começava mais ou menos um mês antes da data. Desta vez foram quase dois meses. Aí não tem “espírito natalino” que desperte com tanta antecedência. Parece até aquela prática das montadoras de automóveis que lançam a linha do ano seguinte no outono do ano anterior, com uma antecedência de oito meses, às vezes.
Considerando que se trata de uma antecipação promovida com intenções claramente comerciais, parece claro que isso indica a gravidade da crise econômica. Diante da desaceleração do consumo em função da falta de dinheiro circulando, a antecipação da campanha de Natal parece uma tentativa desesperada de incrementar o consumo e atiçar o mercado.
Salvo melhor juízo, a tentativa não dá sinais de sucesso, confirmando o início do provérbio chinês no sentido de que “antes da hora ainda não é hora”. Ainda que o espírito de natal possa ser despertado ou turbinado pelas campanhas publicitárias de final de ano, o episódio deste ano revela que elas não são tão determinantes do estado de ânimo dos consumidores.
Basta sair às ruas para ver e perceber o acanhamento do consumo diante dos preços altos que não param de subir e que se reflete inclusive em prateleiras com pouca variedade de produtos e ofertas falsas que fisgam só os que se impressionam com as velhas estratégias de marketing que capricham mais no destaque do produto e de seu preço do que no desconto real.
Bueno, diante disso, só resta respeitar a sabedoria chinesa e esperar a hora certa para dar o pontapé inicial para o espírito de Natal, pois “quando for a hora, aí sim é a hora”.

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