ANO: 254 | Nº: 6355

Marcelo Teixeira

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Advogado e professor universitário - Urcamp
18/11/2017 Marcelo Teixeira (Opinião)

Remorsos familiares

Não concordo muito com aquela frase que diz que “só me arrependo do que não fiz”, pois me arrependo, também, de coisas que fiz, ainda que elas tenham me ensinado alguma coisa. As omissões também ensinam! O 'não-fazer' pode ser tão pedagógico quanto o fazer errado, mas é inegável que a maioria dos remorsos quase sempre estão relacionados às nossas omissões.
Lembro como se fosse hoje, um dia de verão magnífico que tivemos o privilégio de curtir na praia do Cassino quando minha filha era pequenina. Como dizemos em família, foi um dia de Cancún: mar sereno, água clara e quente, sem vento, sem nuvens, temperatura alta mesmo já tendo passado das 19h. Minha filha curtia a água, brincava, corria, vivendo um momento de intensa alegria. Tudo ia muito bem até que sem nenhuma razão mais forte, minha esposa e eu decidimos voltar para casa. Chamamos nossa filha e ela, como era de esperar, resistiu em atender o nosso convite para voltar para casa, pois não queria que aquele momento terminasse. Fiquei tocado com a reação dela, cheguei a pensar em ceder aos seus apelos, mas abusei da minha autoridade e retórica para convencê-la que era melhor irmos. Obediente, ela acabou cedendo, mas não sem antes fazer com que eu prometesse que, no dia seguinte, ficaríamos até mais tarde que aquele dia. Prometi, com toda a sinceridade da minh’alma.
O dia seguinte foi horrível, o tempo virou, o mar se agitou, o vento voltou, o sol não brilhou e tivemos um daqueles dias de veraneio que faz a gente pensar em fazer as malas e voltar para Bagé, se isso não fosse desperdiçar as diárias pagas antecipadamente. Não foi possível cumprir minha promessa! Hoje, minha filha tem 26 anos de idade e eu ainda me sinto devedor dessa dívida que jamais poderá ser paga porque o momento se perdeu, a oportunidade não se repetiu e, assim, o meu remorso não termina. Nada do que fiz ou farei poderá compensar. Levarei para o túmulo! Que tristeza!
Meu pai tem 74 anos, meu irmão, 50 e até hoje vejo o meu pai encher os olhos d’água toda vez que conta se arrepender por não ter dado dinheiro para meu irmão, quando era criança, comprar uma rapadura no açougue da vizinhança. Ele podia ter dado, mas não deu só por um exercício de autoridade, para poupar uma quantia de dinheiro que não precisaria ser poupada. Por alguma razão que não ouso especular, isso, para ele, provoca imenso remorso. Talvez pela mesma razão que me leva a ter remorso por esse episódio da praia. E quem nunca teve uma experiência dessas? Entre tantas que vivenciamos ao longo da vida, por algum motivo que Freud deve explicar, uns adquirem maior significância que outros.
Pode parecer dramático demais, mas pequenos arrependimentos, que provavelmente nem são lembrados pelas “vítimas” das nossas ações ou omissões, mas que, para nós, provocam grande desconforto. O tempo não pára, não volta e, assim, teremos que engolir com farinha os nossos remorsos familiares, mas, no meu caso, esse episódio foi um divisor de águas, uma lição de vida. Nunca mais interrompi um bom momento familiar em função de horário ou de outro compromisso. Vou até o fim, até a outra pessoa não aguentar mais e sugerir ir embora. Nunca mais repeti o mesmo erro e espero que assim seja para sempre.

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