ANO: 25 | Nº: 6405

Dilce Helena Alves Aguzzi

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Psicóloga
21/11/2017 Dilce Helena Alves Aguzzi (Opinião)

Arqueologia familiar: a nossa história através de nossos antepassados

É frequente um casal no surgimento do sentimento referir-se à relação, sem saber nomeá-la ainda, com indisfarçável contentamento: “Estamos nos conhecendo”. É uma alegria conhecer alguém, ir descobrindo os contornos do ser em contraste com o fundo que é a vida e os acontecimentos que nos aproximam ou distanciam.
Da mesma forma é missão importante dedicar-se a conhecer nossos pais, irmãos, tios, avós. Conhecer, mesmo, assim como no início do namoro que temos real interesse em saber o que pensa, qual a história, como chegou até aqui e por quais lutas já passou o ser amado. Um pouco de nossos ancestrais ainda vive em nós, percebê-los melhor é nos entendermos e nos aceitarmos um pouco mais. É sabido que pais que contam histórias de vida a seus filhos contribuem para que estes encontrem mais sentido e objetivo em suas existências além de resiliência.
E quando essas pessoas não estão mais entre nós? Ou quando não há ou não houve proximidade o suficiente para esta interação de descoberta? Ainda assim continua sendo alguém significativo, um elo geracional que nos antecedeu. Mesmo assim a pesquisa, a procura por fatos, relatos, histórias familiares, árvore genealógica, conversar com quem conviveu vai favorecendo a aquisição de novas peças para o quebra-cabeça que se deseja montar. Essa verdadeira arqueologia familiar contribui para encontrar sentido, compreensão de fatos, atitudes e opções que muitas vezes não são fáceis e, se não promove respostas a perguntas antigas, ao menos oferece mais informações.
Esta foi a motivação de Francisco Guarnieri ao reunir vasto material sobre seu avô Gianfrancesco Guarnieri, em filme premiado no Festival Internacional de Cinema da Fronteira. Tocado pelo distanciamento existente entre ele e o avô, mergulhou em intensa pesquisa do material sobre sua vida e obra. O resultado disso é um trabalho belíssimo que mostra o perfil de um ator marcante, dramaturgo atuante e engajado politicamente por um ideal que acreditava e fazia sentido lutar em plena ditadura militar. A personalidade, as escolhas e a intensidade de sua trajetória e convicções, bem como o impacto delas em sua vida familiar, vão aos poucos se desenhando através da própria obra de Gianfrancesco, suas entrevistas e as longas conversas de Francisco com o pai Paulo e o tio Flávio. Perguntado sobre o resultado pessoal dessa busca por compreensão, Francisco respondeu que não diminuiu a distância, mas agora este espaço está preenchido por muita informação importante.

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