ANO: 24 | Nº: 6038

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
23/11/2017 João L. Roschildt (Opinião)

Os cães ladram e a caravana passa

Se é verdadeira a frase metafórica de que “você nunca vai chegar ao seu destino se você parar e atirar pedras em cada cão que late”, do “destilado” político Winston Churchill, também é verdade que latidos reiterados podem obstaculizar e destruir caminhos para que se chegue a um bom destino. Assim, saber descartar o que é irrelevante e dar atenção devida àquilo que importa é a grande lição de Churchill.

No Brasil, país em que Alexandre Frota se transformou em um ícone do conservadorismo ou de uma direita inexistente, em que o feminismo é visto como uma teoria ou movimento social que o “mainstream” insiste em dizer que defende os direitos das mulheres, e em que o sempiterno presidente Eurico Miranda, candidatando-se para reeleição à presidência do Vasco da Gama, denomina sua chapa de “Reconstruindo o Vasco”, existem muitos “canis lupus familiaris” para poucas pedras. Preocupar-se com Frota e Eurico? A grande mídia já se ocupa disso, e a simples menção de seus nomes altera levemente os músculos da face, misturando escárnio e desdém. No entanto, o feminismo, aquela teoria que não defende todas as mulheres, mas somente as defensoras da “causa” (como o feto ainda não é militante e pode ser um homem, nada mais “justo” do que defender a legalização do aborto com muita verborreia), passa relativamente ileso pela mídia.

Em 16/11/2017, no portal progressista “Justificando: mentes inquietas pensam Direito”, a Juíza do Trabalho Roselene Aparecida Taveira publicou o texto “Meu cérebro, minhas ideias”. A coluna, um emaranhado de afirmações clichês em defesa do feminismo e desprovidas de significado, tenta reforçar a ideia de como o sistema capitalista é ruim, de como há uma sociedade patriarcal e de como a luta de classes é necessária. Até esse ponto, nada de novo. Mas o foco central da juíza Roselene é verificar a apropriação intelectual que o homem faz com a mulher. Para tanto, ela sugere abordagens masculinas em que algumas mulheres irão se identificar: “Você poderia me ajudar com uma palestra?”; “Você me daria uma ideia?”; “Poderia me ajudar com os estudos”?; “Poderia ler o que escrevi?”. Perguntas aparentemente inocentes que um homem/marido/namorado poderia realizar. Mas, para a juíza Roselene (música de suspense), “tais abordagens, quando corriqueiras em um relacionamento, podem revelar algo além de um mero interesse intelectual, mas uma apropriação do intelecto feminino pelo seu parceiro, amigo ou próximo”. Como assim?

É evidente que a juíza deseja transformar todo relacionamento conjugal em uma luta de classes. No entanto, a maior parte das pessoas não deseja politizar seu relacionamento: basta viver, conviver e se relacionar para verificar que isso só está presente em mentes totalitárias. Conversei com alguns casais de alunos e com pessoas vinculadas ao ambiente intelectual. Todas, rigorosamente todas as pessoas, julgaram um absurdo as afirmações do texto. E todas, rigorosamente todas, homens e mulheres, já ouviram as perguntas que poderiam suscitar apropriação intelectual. E todas, rigorosamente todas, afirmaram que o auxílio mútuo faz parte de um relacionamento afetivo. Progressistas politizam até o afeto? A propósito, minha noiva leu essa coluna a meu pedido (e deu o título!), levantou levemente os músculos da face e nunca atirou pedras em cachorros.

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