ANO: 25 | Nº: 6404

Fernando Risch

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Escritor
24/11/2017 Fernando Risch (Opinião)

Não buzine no túnel

Quando você entra no Túnel da Conceição, em Porto Alegre, há uma placa pedindo educadamente para que não se buzine lá dentro. Não sei quais as implicações, talvez seja o eco reverberando, mas, ainda assim, volta e meia alguém buzina.

O comportamento é praticamente natural. Talvez ninguém tivesse o impulso de buzinar lá, mas quando há um sinal dizendo para não fazê-lo, parece irresistível, a buzina tem que ser pressionada. Faz parte do ser humano essa compulsão quase sexual pela contravenção e pelo proibido. Não é a toa que exista uma cerveja chamada Proibida, com o slogan de que ela é “mais gostosa”.

Não apenas dentro dessa compulsão contraventora, mas dentro dos comportamentos naturais do seres humanos, precisamos nos restringir liberdades para controlar certas atitudes. A simples ideia do liberalismo pelo liberalismo é quase anárquica, fazendo com que sejamos tão livres ao ponto de sermos presos dentro dessa liberdade.

No Reino Unido, depois de se tornar moda ataques com ácido, a Inglaterra estuda criar mecanismos de controle na venda destes produtos, fazendo com que um sistema burocrático impeça pessoas de simplesmente comprarem esses químicos em qualquer bodega, para que não o utilizem fora do seu propósito básico.

Nos Estados Unidos, conhecido como “The land of the free” (A terra dos livres), há o debate constante, sem a devida profundidade prática, sobre o controle na venda de armas. Lá, você pode adquirir um fuzil no supermercado, junto ao pão, que, infelizmente, não é cacetinho. A discussão dos contra armas versus os a favor das armas se dá pelo número elevado de massacres de cidadãos comuns com arma de fogo naquele país. Os pró-armas dizem que a liberdade de adquirir um armamento é um direito inviolável da liberdade, previsto na Constituição americana. E eles se tornam reféns de si mesmo, sob o emblema da liberdade, de serem vítimas da própria população.

Já no Brasil, por exemplo, uma mulher não tem direito de controlar seu próprio corpo, é o Estado que a domina. Se uma mulher engravidar, seja por quem for, e não quiser ter a gestação, algo que transformará e modificará seu corpo de forma agressiva, ela não tem o direito de interromper sua gravidez. Quem diz o que uma mulher, individualmente, pode ou não fazer com seu próprio corpo, que pertence a si mesma, é o Estado e suas leis restritivas e proibitivas. Ou seja, a sociedade. É um caso oposto ao liberalismo social, que deveria respaldar que um ser humano seja, pelo menos, dono de si mesmo. É uma liberdade que falta.

O filósofo austríaco Karl Popper definiu em 1945, o paradoxo da tolerância. Ele disse: "Tolerância ilimitada leva ao desaparecimento da tolerância. Se estendermos tolerância ilimitada até mesmo para aqueles que são intolerantes, se não estivermos preparados para defender a sociedade tolerante contra a investida dos intolerantes, então os tolerantes serão destruídos, e a tolerância junto destes.".

Esse pensamento serve, também, para a liberdade. Se chegarmos ao ponto de sermos livres totalmente, sem nenhuma restrição ou proibição, perderemos a liberdade. A questão é que nós, seres humanos, sob impulsos da imperfeição, mesmo que com a necessidade e vontade de sermos plenamente livres sobre a vida que vivemos, precisamos legislar para restringir certas liberdades; liberdades estas que, paradoxalmente, se mantidas sem controle, acabam por nos aprisionar dentro delas.

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