ANO: 25 | Nº: 6384

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
25/11/2017 Marcelo Teixeira (Opinião)

Glorificação da derrota

Nos últimos tempos, a humanidade criou uma geração de crianças e jovens despreparados para a derrota, despreparados para enfrentar os revezes inerentes a um mundo paradoxalmente cada vez mais cruel e impiedoso. Pessoas sensíveis demais, frágeis demais, desacostumadas a ouvir um simples “não”, desacostumadas a enfrentar uma contestação ou divergência, desacostumadas à não satisfação de suas vontades e desejos. Mimados, infantis, inocentes etc. E, em grande parte, os pais são cúmplices nisso, mas por um motivo muito difícil de condenar.
Os pais desta geração conseguiram romper com o rigor e sisudez que caracterizaram a personalidade das gerações de pais anteriores e implantaram uma dinâmica familiar desavergonhada quanto aos sentimentos de afeto. Mimam, acarinham e se declaram sem vergonha nem medo de ser feliz, enfim, pais que amam demais e não conseguem colocar os limites que todas as crianças precisam e que fazem parte do pacote que se denomina de “amor exigente”. Tal expressão batizou um método para tratamento de dependentes de drogas, mas vai muito além disso ao recomendar, sempre, o “lado mau” do amor, a necessidade de “puxar a orelha” dos amados. Como digo quando falo das dificuldades de criar um filho: alguém tem que fazer o trabalho sujo, ralhar, chamar a atenção, ser enérgico e, eventualmente até, dar umas palmadinhas.
Na outra ponta, os pais relapsos, ausentes, que não fazem o trabalho sujo nem o limpo, que terceirizam a criação dos filhos, não dialogam e não se declaram. Ainda que sejam totalmente diferentes dos pais que amam demais e de criarem filhos diferentes também, há algo em comum entre os filhos de todos eles: crianças e jovens sem limites, achando que podem tudo e que o mundo está aí para lhes servir.
Essa tendência é tão evidente que extrapola o ambiente familiar. Nos programas de TV onde há jurados ou júri responsável pela avaliação do desempenho de quem se apresenta, seja como chef de cozinha, cantor(a), dançarino(a), artista ou candidata a concurso de beleza, a preocupação em consolar o perdedor ou derrotado é tanta que praticamente não se comemora a vitória nem se parabeniza o vencedor. Ainda não me dei o trabalho de cronometrar, mas acho que nem precisa. O tempo que os jurados gastam com aquele blá-blá-blá de que o derrotado não deve desistir, que ele tem talento, potencial, qualidade, futuro etc, é tanto que o vitorioso sai do quadro quase que envergonhado por ter ganhado. Como se a vitória ou sua celebração pudesse ser entendida como um deboche ou escárnio contra os derrotados. A que ponto chegamos!
Tudo bem que não precisamos esculachar o derrotado, que devemos respeitar aqueles que tentaram e concorreram, mas isso não justifica lhe dar mais atenção do que ao vitorioso, só para não melindrar sua autoestima. Daqui a pouco, vamos glorificar mais a derrota do que a vitória. Não quero ser cruel, mas se alguém foi derrotado numa disputa justa e isenta, é porque foi mal, foi pior e tem que usar esta derrota para aprender, levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima. Todavia, estamos desenvolvendo um temor tão grande em desagradar ou ofender involuntariamente os derrotados, que estamos invertendo as coisas e lhe dando um destaque ou tratamento imerecido.
O mesmo ocorre, por exemplo, no julgamento das escolas de samba onde ninguém tira menos de nove. As disputas são por décimos quando na verdade a avaliação vai de zero a dez. Até nas escolas formais o zero a dez está sendo abolido por graus maiores (letras ou códigos) onde mais da metade aprova. Já na escala de zero a dez somente trinta por cento (de 7 a 10) aprova. Por trás de tudo isso, esta referida preocupação em não desagradar as pessoas, em não ferir suscetibilidades. Ora, convenhamos, sejamos realistas! O mundo não é esse mar-de-rosas e exatamente por isso é que as frustrações só aumentam, pois a pessoa sai desse mundinho de faz-de-conta, politicamente correto, construído para proteger a auto-estima de todos e quando vai enfrentar o mundo cruel aqui fora, não aguenta o tranco. Como diz a sabedoria popular, “a vida é para quem topa qualquer parada e não para quem pára em qualquer topada.” Não há vitorioso que não tenha sido derrotado e não há derrotado que não possa ser vitorioso. Então, como disse Raul: “não diga que a vitória está perdida. Se é de batalhas que se vive a vida, tente outra vez!”

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