ANO: 25 | Nº: 6255

José Carlos Teixeira Giorgis

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Desembargador aposentado e escritor
25/11/2017 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

Tempos de elegância

Deixei atrás período de vassalagem ao terno e à gravata. Subjugado às galas de certas funções acomodara o talhe aos protocolos do serviço público. Hoje, os cabides sustentam peças inservíveis e as gavetas adormecem aos suspiros de pedaços de pano finos ou triangulares, de cores solenes ou tons esfuziantes que se trocavam conforme o costume e o invólucro.
A ociosidade das roupas também se justifica com a tirania dos quilos que não cedem à negligência do esforço. Sempre há esperança que, demolido o império das calorias, os confinamentos acabem e ressuscitem dos armários as lãs, viscoses, os linhos e os algodões. Que volte a se atentar para o corte inglês, italiano ou clássico. Que se dê atenção às estampas, às lapelas finas ou grossas. A fenda no paletó. Às combinações e comprimentos.
Quando se reveem antigas fotografias admira-se como os homens não dispensavam as vestes cerimoniosas. Outrora a gravata era imprescindível. Ia para os colégios onde lecionava bem enfarpelado,obrigado usar o crediário na Casa Kalil ou com o Naefe. Sobrando algum recursoadquiriam-se uns panos para o Rômulo Freitas ou o Ramão confeccionar jaqueta transpassada, dois ou três botões; e para bodas, bailes da Exposição ou formaturas eramcoativas as alpacas do Benevenga.
O exercício da advocacia, comparecimento ao foro e presença em audiências exigiam o terno social, os juízes de soslaio controlavam o rigor formal, pois também, como outras classes, seguiam a indumentária bacharelesca.
Houve época em que um fotógrafo estacionava perto do Clube Comercial ou do Relógio Monstro para retratar namorados, os grupos de estudantes que desciam a Rua Sete sempre bem apurados, às vezes com familiares. E lá vinham eles com os sapatos lustrados, um suéter aninhando o nó da gravata, bem balaqueiros. A mão no bolso era tradicional.
Olhando as reportagens cinematográficas dos jogos mundiais de cinquenta ou sessenta chama atenção que o público masculino, embora com roupa leve para enfrentar o calor carioca, não abdicava da gravata ou do casaco. E naquele solaço, se bem que o chapéu de palha também era moda.
Confesso a vocês: gosto de comprar obras sobre etiqueta e estilos, sobre corridas e caminhadas, sobre dietas do momento, mas como sabem, trata-se de mero afeto platônico ou de retórica vazia, faltando sempre o engajamento disciplinado. Ao fim de cada leitura rezo que, sem falta, começarei as mudanças na segunda-feira. O azar é que sempre aparece algo que impõe um adiamento.
Por ora, meu Deus, deixa-me no informalismo. Preserva-me dos colarinhos apertados, permite que conserve somente a franciscana presença do velho blazer para alguma palestra ou inauguração. E do solene trajo para casamento ou posse. Muitas camisetas para o calor. Aplausos para as calças cargo que dispensam o cinto traiçoeiro. Os confortáveis tênis para a caminhada improfícua ou cafezinho folgado. E muitos hosanas ao minimalismo e desapego. Viva o nadismo. Menos é mais.
Todavia reconheço que a elegância é tão importante que até Honoré de Balzac escreveu um pequeno tratado sobre a “Fisiologia do Vestir”, especialmente sobre a gravata. Duvidam?
Vou provar.

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