ANO: 25 | Nº: 6385

Dilce Helena Alves Aguzzi

dilcehelenapsicologa@gmail.com
Psicóloga
28/11/2017 Dilce Helena Alves Aguzzi (Opinião)

A obsessão por ser visto

Vivemos a época do instante registrado, do momento posado para a foto, ou melhor, vivemos para o clique. Parece que se não há registro, se não foi publicado, nem mesmo nós teremos certeza de que foi realmente vivido. E aí vale tudo, fotografar e mostrar ao mundo um passeio, o sorriso, o beijo, a comida, o gato, o cachorro, o pé, a espinha, o boletim do filho, o que for e ocorrer. Tantos instantes banais do cotidiano, porém cheios de significado somente para o círculo mais íntimo, quando compartilhados na internet, parecem estar afirmando para todos: estou aqui, vivo, sou importante, e também tenho opinião, e uma vida, e felicidade, e bom humor, e viajo, e sou querido por muitos e, e, e.
Neste panorama surge também a necessidade de demonstrar amor em público. As declarações mais lindas são explicitadas por mensagem, foto, poema, música, filminho. Mas, de nada valeria ser uma linda mensagem de amor se somente a pessoa amada visse.
Não, se assim fosse não faria tanto sucesso. Tornou-se necessário ser visto dizendo que ama e que é amado. Demonstrar amor acabou sendo uma propaganda de si mesmo utilizando o dito ser amado para tanto. Como se fosse uma prova irrefutável de que somos pessoas dignas de felicidade e de amor, estamos provando, não há como negar. Daí, vê-se de tudo. De gente que nem se visita ou se fala declarando amor eterno até companheiros desleais que desrespeitam e demonstram na prática exatamente o contrário do que as palavras vistas na rede mostram.
Qual verdade vale mais? A que se sente e vive espontaneamente ou aquela para provar legitimidade ao mundo big brother que precisa tudo ver e por todos ser visto? Nada contra as demonstrações criativas e públicas. Tudo contra a obrigatoriedade.
Todo mundo tem um jeito peculiar de sentir e de demonstrar. Não existe regra, do contrário não haverá mais sutilezas ou características únicas e individuais. Parece que se não está ali, em registro de rede social, não existe. Vejo pessoas ficando magoadas porque não receberam mensagem pelo Facebook do marido, esposa, namorado, filho, irmão, para que todos vissem. Porém, pasmem! Essas pessoas que ficaram chateadas ganharam abraços, presentes e as mais variadas e verdadeiras demonstrações de amor real e original. Mas ficaram aborrecidas porque ninguém viu, não ficou registrado na rede para saber quantos curtiram. O erro do ente querido em questão foi ter feito o gesto de amor na privacidade da vida em família. Imperdoável, para muitos. Isso está virando obsessão, viver apenas, sem registro, sem provas ou likes, está ficando sem graça. Está se tornando melhor ganhar notoriedade por algo que não é totalmente real, mas que todos viram e curtiram do que vivenciar algo real e original, mas que ninguém viu. Isto deve significar alguma coisa. Quem sabe pensar a respeito e equilibrar um pouco a balança entre o público e o privado? Talvez não seja conveniente ou prudente tanta exposição. No entanto, acima de tudo, devesse respeitar quem não tem tanta desenvoltura para a vida em vitrine.
(Artigo republicado por absoluta necessidade de contribuir com um mundo mais original)

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