ANO: 23 | Nº: 5813

Fernando Risch

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Escritor
01/12/2017 Fernando Risch (Opinião)

O brasileiro e sua idolatria por quem ganha dinheiro a qualquer custo

Certa vez, disse algum filósofo que o brasileiro não gosta de competir, gosta de ganhar. Esse é o esporte do Brasil. Torceremos pela equipe de remo e de saltos ornamentais nas Olimpíadas, desde que sejam medalhas de ouro. Nem o próprio futebol, o esporte dos esportes, escapa desta lógica. Saberemos apreciar, desde que venha com vitória. Nosso espírito esportivo está ligado intrinsecamente ao pódio, especificamente no ponto mais alto dele.

Eike Batista foi um grande empresário brasileiro. Hoje, como todos sabem, está preso e careca – não que ser careca seja um problema. Eike foi o sétimo homem mais rico do mundo, com fortuna especulada em U$ 30 bilhões. Nessa época, quando o megalomaníaco empresário visava o topo do mundo dos mais ricos, o brasileiro médio o idolatrava. Certamente era um case de sucesso. Consigo lembrar até de alguns que pediam sua candidatura à Presidência da República. Não à toa, hoje, alguns “bem sucedidos” em suas áreas ganham espaço na política. À época de Eike, isso era impensável. Lugar de empresário é nos negócios, lugar de político era na política. Não havia necessidade do contrário.

Mas Eike Batista faliu. A ultrassucedida OGX foi-se às águas e o patrimônio especulativo multibilionário foi-se junto. Eike tornara-se gente como a gente. Não necessariamente. Ele teve que trocar seus jatos Legacy por viagens na sessão executiva de um avião comercial. Trocou a vida do bilhão pelo milhão. Mas, para quem viu seu reino desmoronar, Eike agora era um fracassado, um derrotado, era gente como a gente. O brasileiro só gosta de ganhar. Então as piadas vieram, e não foram poucas. O maior empresário da história do Brasil, o qual foi erguido ao plano de semideus, com pedidos acalorados para assumir a presidência do país, via sua reputação ser pisoteada pelos mesmos que promoveram sua apoteose, agora o avaliando abaixo da bosta do cavalo do auxiliar do bandido de um filme B western.

Nesta semana, o youtuber Felipe Neto anunciou, junto de seu irmão, que patrocinaria o Botafogo. Esse fato dividiu as opiniões na internet, entre aqueles que menosprezavam a carreira de Felipe Neto e, consequentemente, o Botafogo, com aqueles que o defendiam e viam nas críticas um recalque por seu sucesso estrondoso e por sua fortuna multimilionária como influenciador na internet. Felipe Neto tem uma carreira de décadas como youtuber, se caracterizando, principalmente, por críticas geralmente destrutivas de outras pessoas. Seu irmão, Luccas Neto, apareceu há pouco no mundo virtual, com um vídeo no qual, seminu, entrava em uma banheira de Nutella e imitava uma foca. Há quem ache isso engraçado. De fato, o público dos irmãos Neto são predominantemente de jovens, na faixa entre nove e 14 anos.

Mais uma vez, o brasileiro evoca o “poder do sucesso” para justificar um ato infame. Sucesso, leia-se, dinheiro. Ou seja, se alguém sair correndo seminu na rua, coberto de Nutella e imitando uma foca, desde que aquela pessoa ganhe muito dinheiro para fazer aquilo, é proibido erguer uma crítica para um ato patético. “Olha aquilo, que ridículo”, eu diria. “Ah, mas ele ganha 75 trilhões de dólares fazendo isso”. E eu tenho que me calar, porque o dinheiro baliza o sucesso.

No Brasil, se você fizer um trabalho bom, de qualidade, isso não importa. Para que você seja reconhecido e respeitado de verdade, terá que ganhar muito dinheiro com seu ato, mesmo que seja comer intestino de gado cru no semáforo. Do contrário, você será apenas a última fase da vida de Eike Batista, um derrotado que não ganha milhões com seu trabalho. Se Vincent van Gogh fosse brasileiro e vivesse em nossos tempos, seria preterido, sem dúvida nenhuma, por Romero Britto. E ai de quem se opusesse a isso.

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