ANO: 23 | Nº: 5813

José Carlos Teixeira Giorgis

jgiorgis@terra.com.br
Desembargador aposentado e escritor
02/12/2017 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

O Doutor Otávio e a biblioteca pública

O afeto à leitura e aos livros tem sede também na presença em bibliotecas. O local funciona como laboratório de cultura onde o manuseio de obras que não se pode adquirir supre a dificuldade e soluciona a dúvida. O contato com velhos periódicos reconstrói o passado. O ambiente de silêncio e meditação descansa o espírito e acalma a curiosidade. Serve ao estudo. Acrescenta saber.
Quando adolescentes o pai nos levava à biblioteca, ainda no artístico prédio que ficava no prolongamento da rua General Sampaio, dobrando a Capelinha, fronteiro à Casa Ramos e defronte da loja Figueiró e da sede do Aeroclube de saudosas quermesses. Era ponto de reunião de intelectuais. E ninho de raridades encadernadas. Conferências magistrais ali aconteciam. Grandes escritores palestravam. E políticos.
A biblioteca foi sonhada por um grupo que se reunia na redação de O Dever, jornal criado em 15 de novembro de 1901, porta-voz do Partido Republicano Rio-grandense e do castilhismo/borgismo; e mais tarde adversário de o Correio do Sul, de Fanfa Ribas, federalista e seguidor de Gaspar Martins. O primeiro teve, entre seus diretores, Lindolfo Collor, ancestral de um presidente da República; e o bajeense Adolfo Luiz Dupont, promotor público, deputado estadual e federal e vice-presidente da Assembleia Legislativa, sobretudo, um combativo editor. Alguns falam que a aspiração daquele núcleo literário começara em 1903.
Otávio dos Santos foi jornalista político da folha castilhista. Mais tarde daria forma para outra gazeta chamada A Reação.
A biblioteca foi inaugurada em 24 de novembro de 1933, inicialmente na rua General Sampaio, nº 159, mais tarde na avenida Sete de Setembro, nº 124. No ato, estava presente o general Gervásio Rodrigues, prefeito nomeado pelo interventor Flores da Cunha; Costábile Hipólito, vigário da Paróquia São Sebastião; a senhorinha Corinha Gomes, madrinha da biblioteca; a banda do 12º RC; e muita gente.
A primeira diretoria era composta por Artur Santayana Mascarenhas, presidente; Otávio dos Santos, vice; Pedro Rubens Wayne, secretário; Fernando Borba, 2º secretário; Artur Magalhães, tesoureiro; e Favorino Teixeira Mércio, bibliotecário. O orador, Otávio dos Santos, fez um chamamento aos seguidores do Partido Liberal e aos membros da oposição; aos integralistas e comunistas; aos capitalistas e operários; aos nacionais e estrangeiros e aos homens de todos os credos, sublinhando que “a biblioteca é de todos, exatamente por não pertencer a ninguém, coisa pública que ela é”.
Otávio dos Santos (n. 20.11.1899; f. 29.11.1978), bacharelou-se na Faculdade de Direito de Pelotas em 1936. Mas antes, como permitido, estreara no júri em 24/06/1923, como defensor dativo de réu que ninguém quis patrocinar em razão de sua participação na revolução de 1923.
Aficionado pela instituição do júri, reconhecia que ela ainda praticava “a menos imperfeita das justiças humanas”. Orador candente impressionava por seu talento. E coerência política.
No processo instaurado nesta cidade em 1964, perante à Justiça Militar, foi o defensor de 28 dos 40 “subversivos”. E o fez gratuitamente. Dele disse Osvaldo Moraes ter sido “um advogado do princípio ao fim, que empolgou o júri, onde ouvi-lo era um fascínio”. E George Teixeira Giorgis que o Dr. Otávio “jamais transigiu com a honorabilidade profissional nunca abdicando das ideias próprias, pelas quais sempre nutriu forte apego”.
Otávio dos Santos é o patrono da octogenária biblioteca pública, agora dirigida pela ativa e competente Carmen Lúcia Grilo Gomes, que lhe imprime uma gestão destacada em sintonia com os desígnios dos pioneiros que almejaram tornar Bagé uma proeminência na erudição do país.
Devaneio, é verdade, que ainda nos arrebata.

Deixe seu comentário abaixo

Mais notícias da edição

Outras edições

Carregando...